“Em Terra de Urubu, a Voz é Nossa”: A Batalha São Vicente movimenta cultura, juventude e resistência em Araxá.
Em Araxá, versos improvisados ecoam como gritos de identidade, denúncia e poesia. Nas noites acesas pela energia da juventude, as batalhas de rima, também conhecidas como freestylebattles ou battle rap, se consolidaram como um movimento cultural vibrante na cidade, promovendo encontros que unem criatividade, crítica social, musicalidade e fortalecimento de identidade.
Esse tipo de duelo verbal nasceu na década de 1970, no Bronx, Estados Unidos, dentro do movimento hip-hop. No Brasil, ganhou força no início dos anos 2000, se organizando com mais estrutura a partir de 2003 com a famosa Batalha do Real, no Rio de Janeiro.
Hoje, em Araxá, o formato encontrou seu espaço, com destaque para a Batalha da São Vicente, uma das mais populares e representativas da cidade, transformando ruas e praças em arenas de arte e resistência. O projeto também pode ser acompanhado pelo Instagram, no perfil @saovicentebatalha.
Improviso, cultura e comunidade
As batalhas de rima são duelos verbais entre MCs (mestres de cerimônia), que improvisam versos rimados com o objetivo de superar o adversário em criatividade, flow, argumento e presença de palco. Os participantes rimam em turnos, usando trocadilhos, críticas, piadas ou reflexões, enquanto o público vibra e participa ativamente, escolhendo os vencedores de cada round.
Na Batalha São Vicente, tudo começa com o sorteio dos duelos. Os MCs são colocados frente a frente e, a partir dali, os versos falam por si. O formato mais utilizado é o 8x4: o primeiro ataque conta com 8 versos, e as respostas seguintes têm 4 versos, com quatro voltas completas no round. A vitória é decidida por dois jurados e pelo voto popular da plateia, que se envolve ativamente a cada verso rimado.
Além da vitória simbólica, os ganhadores recebem uma lembrança – um doce, um livro ou outro mimo – oferecido por organizadores, artistas independentes ou pelo próprio público. A “folhinha” com o nome do campeão também registra o legado de cada edição.
Mais do que competição, as batalhas são um espaço de convivência, representatividade e acolhimento. O público é diverso: jovens, adultos e até crianças participam das rodas. Ainda assim, os jovens são os principais motores: são eles que rimam, julgam, organizam e mantêm viva a chama do movimento. Nas ruas e quadras, a cultura do Hip-Hop enraizada na valorização da autoestima e da ancestralidade africana, é ponte de conexão entre diferentes realidades e gerações e promove o respeito e a transformação social. Da roda de amigos ao símbolo de resistência
A Batalha São Vicente: onde tudo começou
A ideia da Batalha São Vicente nasceu de encontros informais entre amigos apaixonados por rima. A faísca criativa partiu de Matteo, que reuniu o grupo e iniciou a organização ao lado de Gab, Melo, Kanpe, Vilela e Lívia. Hoje, a organização segue ativa com Kanpe, Matteo, Melo, Vilela, Gab e Soteldo.
Organizadores da Batalha São Vicente.
O mascote da batalha, o Urubu, nasceu de uma rima marcante feita por Melo: “Em terra de urubu, nunca vai cantar galinha”. Mais do que um símbolo, o urubu representa os marginalizados — aqueles que, como muitos jovens da periferia, são constantemente excluídos. Tornar o urubu um ícone da batalha é um protesto, uma reviravolta poética e política sobre o valor de quem resiste.
Os MCs de Araxá: vozes que transformam
A cidade de Araxá abriga talentos poderosos, que representam com força a rima, a poesia e a consciência social. Muitos deles não apenas participam da Batalha São Vicente, mas também atuam como educadores, poetas e artistas engajados na transformação social por meio da arte.
Thiago Vovs
MC, poeta, musicista e uma das maiores potências do rap araxaense. Presente em diversas batalhas como a Cultura na Quadra, Batalha Araxá, Batalha do Triunfo, BDQ e claro, a Batalha São Vicente. Vovs é conhecido por sua versatilidade, misturando Boom Bap, Trap, Country Rap e Nu-Metal. Suas influências vêm de artistas nacionais e internacionais, mas especialmente do rock e da poesia de saraus. É considerado um “monstro do rap local” por sua entrega artística e lírica afiada.
Day MC
Desde 2019 na cena, Day MC é mais do que uma rimadora — é poeta, cantora e apresentadora. Tem presença marcante nos slams e batalhas, e atua como poeta formadora em escolas, usando a arte como ferramenta de transformação social. É uma voz essencial para a presença e representatividade das mulheres no hip-hop araxaense, e inspira outras a ocuparem o espaço com firmeza e criatividade.
Santos MC
Conhecido como $antos MC, é autor do livro “O Menino do Barraco 157” e cria da zona oeste da cidade, hoje morador da zona norte. Ativo há três anos na cena, é poeta marginal e MC de batalha, além de formador de oficinas. Representou Araxá em eventos como o Duelo Regional em Uberaba, Udifestival e Slam MG. Fiel ao estilo clássico do Boom Bap, foca na mensagem social de suas letras e sonha em levar o nome de Araxá ao icônico palco do Viaduto Santa Tereza, em BH.
A.R 15
Referência histórica, A.R 15 foi o primeiro MC de Araxá a conquistar uma vaga no regional, em 2019. Desde então, participou de quatro edições e se tornou o nome que mais representou a cidade fora. Seu estilo é direto e reflexivo, com forte base no hip-hop e um olhar voltado para questões sociais. Através da palavra, promove reflexão, resistência e entretenimento. É presença constante na Batalha São Vicente, que considera um dos espaços mais importantes de visibilidade da cultura local.
Outros tantos nomes vêm se destacando na cena que mostram o potencial artístico e social da cidade.
Dificuldades e força coletiva
Mesmo com toda a potência cultural, a Batalha São Vicente enfrenta obstáculos. A principal dificuldade é a falta de recursos financeiros para premiações e melhorias na infraestrutura do evento, como aquisição de equipamentos de som. Ainda assim, o espírito coletivo mantém a chama do movimento acesa, com dedicação, criatividade e paixão pela cultura.
Mais que rima: é transformação
A Batalha São Vicente é o reflexo de uma juventude que acredita na força da palavra. É onde vozes antes silenciadas encontram espaço para se expressar, resistir e inspirar. Com microfones simples e sonhos imensos, os MCs de Araxá seguem provando, verso após verso, que a periferia tem voz — e que essa voz rima com futuro.






