Das Origens ao Legado: A Formação de Famílias e Territórios no Interior de Minas Gerais - Fabrício Borges

Abr 2, 2026 - 16:06
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Das Origens ao Legado: A Formação de Famílias e Territórios no Interior de Minas Gerais - Fabrício Borges

Formação e Desmembramento do Antigo Município de Araxá

A ocupação do Triângulo Mineiro remonta ao antigo Sertão da Farinha Podre, uma região considerada de fronteira entre os séculos XVIII e XIX por situar-se nos limites pouco definidos entre as capitanias de Minas Gerais, Goiás e São Paulo. Nesse contexto, tratava-se de um espaço ainda em consolidação, marcado pela presença de caminhos abertos por tropeiros, pela expansão da pecuária e pela distribuição de sesmarias, elementos que impulsionaram o avanço da ocupação.

O primeiro núcleo de povoamento mais significativo foi o Desemboque, que desempenhou o papel de centro administrativo inicial. No entanto, com o declínio da mineração — atividade que sustentava sua importância —, o arraial perdeu gradualmente sua centralidade. Esse processo abriu caminho para a ascensão de Araxá, que, beneficiada por sua posição e pelo dinamismo das atividades agropastoris, passou a concentrar o crescimento regional, sendo elevada à categoria de vila em 1833 e consolidando-se como o principal polo de organização e expansão da região.

Poucos anos depois, em 1835, Araxá já abrangia um território vasto, estendendo-se por toda a área entre os rios Grande e Paranaíba — uma dimensão que ultrapassava, inclusive, os limites do atual Triângulo Mineiro. À medida que novos povoados surgiam e se desenvolviam, a administração de um território tão amplo tornou-se cada vez mais complexa. Assim, iniciou-se um processo de descentralização administrativa, que teve como marco o desmembramento de Uberaba, em 1836, seguido pela criação de Patrocínio, em 1842.

Com o passar do tempo, esse movimento se intensificou, e o antigo município de Araxá deu origem a 76 novos municípios, criados em diferentes momentos históricos. Entre eles, destacam-se Serra do Salitre e Cruzeiro da Fortaleza, que serão enfocados neste artigo, especialmente no contexto da genealogia de Luiz Manoel Leite.

 

De Portugal ao Sertão Mineiro: A História do Capitão Luís Manoel Leite

Luís Manoel Leite nasceu em cinco de janeiro de 1777, no lugar de Fundo de Vila, na freguesia de São Sebastião de Passos, concelho de Cabeceiras de Basto, pertencente ao Arcebispado de Braga, no norte de Portugal. Era filho legítimo de Manoel Gonçalves e Maria Thereza Leite. A família estava inserida no tradicional contexto rural do Minho, região marcada por pequenas propriedades agrícolas, forte religiosidade e intensa organização comunitária em torno das paróquias.

Conforme os costumes da época, poucos dias após o nascimento foi levado à igreja para receber o sacramento do batismo. O batismo ocorreu em 12 de janeiro de 1777, na Igreja Paroquial de São Sebastião de Passos. Os registros paroquiais, principais documentos civis da sociedade portuguesa do século XVIII, registram também seus avós: pelo lado paterno, João Gonçalves e Domingas Francisca; pelo lado materno, Simão Carvalho e Josefa Leite.

A genealogia da família Leite na região minhota remonta a diversas localidades das freguesias de São Clemente, São Pedro de Alvite e São Sebastião de Passos. Entre os antepassados destacam-se famílias estabelecidas nos lugares de Ribeira de São Gonçalo, Aroza de Gandarela e Samede. Seu pai, Manoel Gonçalves, natural da Casa do Chão da freguesia de São Clemente, enquanto sua mãe, Maria Thereza Leite, era natural do lugar de Samede da freguesia de São Pedro de Alvite.

Luís Manoel foi o nono filho do casal. Entre seus irmãos estavam Manoel Antônio, Joanna, Bernardo, Joaquim Antônio, João Antônio, Custódia Maria, Maria Thereza e Antônio Luiz. Todos foram batizados na freguesia de São Sebastião de Passos entre os anos de 1755 e 1777.

Migração para o Brasil

Luís Manoel Leite nasceu em um período de profundas transformações no mundo luso-brasileiro. O final do século XVIII e o início do XIX foram marcados por mudanças políticas e econômicas no Império Português, que culminariam na transferência da corte portuguesa para o Brasil em 1808 e, posteriormente, na independência brasileira em 1822.

Como muitos portugueses de sua geração, Luís Manoel decidiu migrar para o Brasil em busca de oportunidades. Estabeleceu-se no interior da então Capitania de Minas Gerais, região que passava por expansão agrícola e pela formação de novos núcleos populacionais.

Em terras mineiras, fixou residência na Fazenda da Fortaleza, localizada no distrito de Santa Ana da Barra do Espírito Santo (atual Santana de Patos), então pertencente ao termo do Araxá, na comarca do Paranaíba. A fazenda tornou-se um importante centro familiar e produtivo, refletindo a economia rural baseada na agricultura e na criação de gado.

Casamento e Família

Luís Manoel Leite casou-se com Maria Vieira de Jesus, também nascida em 1777. Ela era filha de Matheus Vieira Machado e Anna Rosa de Jesus. Matheus Vieira Machado foi uma figura importante na região, tendo exercido o cargo de juiz no Arraial de Patrocínio. Ele era filho do português José Vieira Machado e de Anna Maria de Jesus.

O casal formou uma extensa família que se integrou profundamente à sociedade local. Entre seus filhos destacam-se:

·         Luís Manoel Leite Júnior (nascido em 1803), casado com Maria Luiza da Silva, filha de Damazo José da Silva e Anna Silvéria de Jesus;

·         Maria Silvéria Leite, batizada em 1805 na Capela de Santo Antônio do Amparo, em São João del-Rei, casada com Francisco Luiz da Silva Alcobaça;

·         Anna Luiza Leite, batizada em 1807, casada com Matheus Vieira Machado Filho;

·         Antônio, batizado em 1809;

·         Cândida Rosa da Conceição, batizada em 1811, casada com Pedro Alves Ferreira;

·         Jezuína Francelina Leite, casada com Francisco Esteves dos Santos.

Atuação Militar e Política

Luís Manoel Leite desempenhou papel importante na organização social e militar da região. Em 1822, ano da independência do Brasil, foi eleito 1º Capitão de Ordenanças do Distrito de Santa Ana da Barra do Espírito Santo. A patente foi oficialmente emitida e confirmada em 1827. As Ordenanças eram milícias locais responsáveis pela defesa e organização das comunidades do interior, desempenhando também funções administrativas e de liderança social. Com a criação da Guarda Nacional em 1831, ocorreram eleições para organização da corporação. Em 1832 houve uma controvérsia durante a eleição da Guarda em Santana. O padre José de Brito Freire e Vasconcelos, cura da Guarda de Santo Antônio de Patos, tentou intervir no processo eleitoral local. O Capitão Luís Manuel Leite protestou contra a interferência, recusou a imposição e comunicou o ocorrido às autoridades competentes. O episódio foi registrado em ata, assinada por diversas autoridades locais, e marcou o início do atrito e da insatisfação em relação ao padre.

Fundação de Serra do Salitre

Luís Manuel Leite também teve papel decisivo na formação territorial da região. Ele colaborou ativamente com a doação de terras, recursos e esforços para a construção de uma igreja e para a consolidação do núcleo comunitário que daria origem à atual cidade de Serra do Salitre. A história oral conta que Luiz Manoel, como bom católico, sempre se dirigia ao distrito de Santana da Barra do Espírito Santo para participar da Santa Missa. Em certo dia, porém, o vigário local iniciou o ofício antes de sua chegada, o que lhe causou descontentamento. Esse episódio, somado à sua insatisfação política, teria contribuído para que ele decidisse escolher um local em suas próprias terras para a construção de uma capela — iniciativa que, mais tarde, daria origem à cidade de Serra do Salitre. Em seis de abril de 1839, o presidente da Província de Minas Gerais, Bernardo Jacinto da Veiga, sancionou a Lei nº 147, que transformou o antigo curato em Distrito de Paz de São Sebastião da Serra do Salitre. A criação do distrito representou um marco administrativo e religioso para a região, e muitos historiadores locais atribuem ao Capitão Luís Manuel Leite um papel fundamental nesse processo.

Igreja Antiga de São Sebastião em Serra do Salitre

 

Testamento e Declaração de Identidade

Já em idade avançada, no contexto do Brasil imperial sob o reinado de Dom Pedro II, Luís Manoel Leite lavrou seu testamento em 21 de setembro de 1861, na então Vila de Patrocínio, pertencente à comarca do Paranaíba, na Província de Minas Gerais. Esse período foi marcado pela consolidação das estruturas administrativas e jurídicas no interior do país, onde a formalização de testamentos representava não apenas a organização patrimonial, mas também a afirmação de vínculos familiares e sociais.

Em seu testamento, Luís Manoel Leite fez questão de afirmar sua condição e identidade ao declarar: “Sou cidadão brasileiro adotivo, honra de que muito me prezo.” Tal afirmação revela o valor simbólico atribuído à cidadania brasileira no século XIX, especialmente entre indivíduos que, possivelmente, não eram brasileiros natos, mas que se integraram à sociedade local.

Para a execução de suas disposições, nomeou como testamenteiro seu filho, Luís Manoel Leite Júnior, seguindo uma prática comum no período, em que a administração dos bens e o cumprimento das últimas vontades eram confiados a membros diretos da família.

Entre as cláusulas testamentárias, destaca-se a doação voluntária, feita em conjunto com sua esposa, de um sítio ao neto e afilhado Antônio Luiz da Silva Leite. Esse gesto evidencia não apenas o afeto familiar, mas também a preocupação com a continuidade do patrimônio e a manutenção da propriedade no âmbito da linhagem familiar — aspecto central na organização socioeconômica rural do Brasil oitocentista.

O testamento foi ainda validado pela presença de testemunhas, incluindo autoridades locais, o que reforça a formalidade do ato e sua conformidade com as exigências legais vigentes à época, garantindo sua legitimidade jurídica e reconhecimento social. O Capitão Luís Manoel Leite faleceu em 10 de novembro de 1861, na Vila de Patrocínio, aos 84 anos de idade, poucos meses após redigir seu testamento. Sua vida atravessou momentos decisivos da história luso-brasileira: nasceu ainda sob o domínio colonial português, testemunhou a independência do Brasil e participou ativamente da formação de comunidades no interior de Minas Gerais.

Legado

A trajetória de Luís Manoel Leite reflete a atuação de imigrantes portugueses no interior do Brasil no século XIX, destacando-se como proprietário rural, militar das ordenanças e liderança local que contribuiu para a organização social, religiosa e territorial; seu legado permanece na formação de localidades como Serra do Salitre e Cruzeiro da Fortaleza, esta última fundada por seu neto, Antônio Luiz da Silva Leite.

 

 

"Antônio Luiz da Silva Leite: O Pioneiro e Fundador de Cruzeiro da Fortaleza"

Antonio Luiz, Cândida Rosa e alguns netos

A história de Cruzeiro da Fortaleza está profundamente ligada à iniciativa e ao pioneirismo de Antônio Luiz da Silva Leite, que recebeu, como legado testamentário de seu avô — o Capitão Luís Manoel Leite, fundador de Serra do Salitre —, uma extensa gleba de terras às margens do curso d’água atualmente conhecido como Córrego da Ponte Funda, na área que ficou conhecida como Fazenda Capão da Lagoa, situada a cerca de seis quilômetros da futura cidade. Com esse legado, Antônio Luiz não apenas transformou a fazenda em centro de atividades agrícolas, cultivando arroz, feijão e milho, mas também exerceu papel fundamental na formação da comunidade local. Generosamente, doou parcelas de suas terras para a construção da primeira igreja da região e para os primeiros habitantes que se estabeleciam no local, incentivando a fixação de famílias e o surgimento do núcleo habitado. Reconhecendo a importância da religiosidade, mandou construir uma capela rústica de madeira em louvor à Santa Cruz, celebrando anualmente a festa em três de maio. Além disso, por iniciativa de Antônio Luiz e dos primeiros moradores, foi erguido um cruzeiro de madeira, que rapidamente se tornou ponto de referência para viajantes e tropeiros que percorriam a estrada ligando Carmo do Paranaíba a Patrocínio, consolidando o nome Cruzeiro da Fortaleza. Graças à visão, ao trabalho e ao legado de seu avô, Antônio Luiz da Silva Leite não apenas transformou o local em núcleo habitado, mas também deixou uma marca duradoura de liderança, generosidade e pioneirismo que seria decisiva para o desenvolvimento do município e da história do Alto Paranaíba.

Antiga Capela de Santa Cruz em Cruzeiro da Fortaleza

Antônio Luiz da Silva Leite era filho de Luís Manoel Leite Júnior e Maria Luiza da Silva. Pelo lado materno, era neto de Damazo José da Silva e Anna Silvéria de Jesus; pelo lado paterno, de Luís Manoel Leite e Maria Vieira de Jesus.

Casou-se com Cândida Rosa da Conceição (II), sua prima, filha de sua tia homônima — Cândida Rosa da Conceição (I) (filha de Luís Manoel Leite e Maria Vieira de Jesus) — com Pedro Alves Ferreira. Este era filho de João Álvares Ferreira e Violanta Maria de Jesus, naturais de Santo Antônio do Amparo.

Do casamento de Antônio Luiz e Cândida Rosa nasceram os seguintes filhos:

·         José Antônio da Silva Leite, casado com Guaraciaba Augusta da Silva;

·         Pedro Ferreira da Silva, casado com Rita Francelina Leite e Rosa Francelina Leite;

·         Joaquina Cândida da Conceição, casada com Joaquim Esteves de Ávila (Joaquim do Morro Alto);

·         Antônio da Silva Leite, casado com Maria Antônia Côrtes;

·         Benedicto Luiz da Silva casado com Juvelina Maria da Silva;

·         Manoel Antonio da Silva Leite, casado com Amélia Filomena da Silva;

·         Elisa Cândida da Silva, casada com Henriques José de Alcântara;

·         Filomena Cândida da Conceição casada com Luiz Álvares Ferreira;

·         Moisés Ferreira da Silva, casado com Cândida Álvares da Conceição;

·         Maria Cândida da Silva;

·         Cândida Rosa da Silva, casada com Manoel Luiz da Silva Sobrinho.

Manoel Antonio da Silva Leite

Antonio Ferreira da Silva, Maria Antônia Côrtes e filhos. P.S.: conta se que Antônio nunca calçou sapato, inclusive pra casar, entrou na igreja descalço, como quem leva consigo a simplicidade e a liberdade.

 

Cândida e Manoel Luiz da Silva Sobrinho

 

 

Joaquina Cândida da Conceição

 

 

A história a seguir foi compartilhada por Cândida Côrtes Carvalho, carinhosamente chamada de “Mestra Cândida”. Reconhecida pelo seu trabalho dedicado à valorização e preservação da memória familiar, ela também foi fundadora e proprietária do Jornal de Luz, na cidade de Luz, que continua ativo até hoje sob a batuta de sua filha Elisabete.  Segundo seu relato, sua tetravó Cândida, esposa de Antônio Luiz da Silva Leite, possuía um hábito bastante peculiar: jamais penteava os cabelos em público, fazendo-o sempre em um quarto fechado, mesmo já em idade avançada, quando seus fios haviam se tornado brancos. Ninguém, além dela própria, via seus cabelos soltos.

Naquele tempo, em que os casamentos eram frequentemente arranjados e mulheres de cabelos ruivos sofriam discriminação, Cândida se casou usando véu e grinalda, o que impediu que seu noivo percebesse a cor de seus cabelos. No entanto, já no quarto, após o casamento, ele se surpreendeu ao notar os fios avermelhados e exclamou: “Eu não sabia que tu tinhas cabelo vermelho”. Com serenidade, ela respondeu: “Se o senhor me der um lenço, ninguém mais verá meu cabelo”. E assim aconteceu: a partir daquele momento, passou a manter os cabelos sempre cobertos.

Mesmo com o passar dos anos, ela manteve esse costume, recolhendo-se ao quarto para pentear os cabelos e utilizando constantemente lenços, muitos deles adquiridos de mascates que percorriam as fazendas vendendo seus produtos.

A narrativa, preservada com carinho por “Mestra Cândida”, permanece viva na memória familiar e na fotografia que guarda a imagem dessa ancestral. Curiosamente, muitos de seus descendentes herdaram o gene dos cabelos ruivos, transmitido ao longo das gerações. O que outrora foi motivo de discriminação transformou-se, com o tempo, em um traço valorizado e admirado, sendo hoje até mesmo desejado por muitos.

Cândida Rosa e Antônio Luiz faleceram em 1919, já bastante idosos, na mesma semana, vítimas da gripe espanhola, que ceifou a vida de milhares de pessoas ao redor do mundo. Quando Cândida se despediu do marido, suas palavras foram : "Até no dia do Juízo, meu velho” - uma referência ao conceito religioso do fim do mundo, quando, segundo muitas crenças, haverá um julgamento final das almas.

 

Pedro Ferreira da Silva – Pedro Luiz: Patriarca de uma das Grandes Famílias de Serra do Salitre

 

Pedro Luiz com alguns descendentes na fazenda Mata Grande

Dentre os filhos de Antônio Luiz da Silva Leite destaca-se a história de Pedro Ferreira da Silva, conhecido por todos como Pedro Luiz, figura que se tornaria um dos mais notáveis patriarcas da região.

Para compreender sua trajetória, é necessário retornar à geração anterior, representada pelo imigrante José Antônio Côrtes (Giuseppe Antônio Lacorte), mais conhecido como Juca Italiano. Nascido na Itália em 1838, na região de Salerno, no sul do país, filho de Filippo  Lacorte e Maria D’Andrea, emigrou ainda jovem para o Brasil, fixando-se no interior de Minas Gerais. Viveu em Serra do Salitre, na fazenda denominada “Pasto dos Bois”, onde faleceu em 1922, aos 84 anos de idade, deixando um legado familiar que se espalharia por toda a região.

Por volta de 1865, Juca Italiano contraiu matrimônio com Anna Rosa Leite, filha de Ana Luiza Leite e neta de Luís Manoel Leite. Conta a tradição oral da família que, antes de consentir com o casamento, o pai da jovem exigiu provas da origem do pretendente, pois havia o receio de que ele fosse casado na sua terra natal ou um cigano errante, já que demonstrava grande habilidade na fabricação de tachos e artefatos de cobre. Para comprovar sua identidade, Juca Italiano empreendeu uma longa e difícil viagem de volta à Itália para buscar sua certidão de nascimento.

A jornada foi extremamente demorada. Partindo de Serra do Salitre, ele seguiu a cavalo até o Rio de Janeiro, viagem que por si só já representava uma verdadeira expedição pelos caminhos do interior do Brasil imperial. Da capital do Império, embarcou em um navio rumo à Europa, atravessando o oceano até alcançar sua terra natal, na região de Salerno. Após obter o documento necessário, retornou ao Brasil, concluindo uma viagem que durou aproximadamente um ano. Somente então o casamento foi realizado.

Dessa união nasceram doze filhos: Rita Francelina Leite (1870), João Côrtes Sobrinho (1872), Maria Antônia Côrtes (1874), José Antônio Côrtes Filho (1878), Filipe Antônio Côrtes (1880), Filomena Francelina Côrtes (1881), Ana Francelina Côrtes (1882), Joaquim Antônio Côrtes (1883), Joaquina Francelina Côrtes (1884), Theodoro Antônio Côrtes (1885) e as gêmeas Rosalina Francelina Côrtes e Rosa Francelina Côrtes, nascidas em 1887. O nascimento das gêmeas foi marcado por uma tragédia familiar: Anna Rosa Leite faleceu durante o parto, deixando o marido viúvo com uma numerosa família. Algum tempo depois, Juca Italiano casou-se novamente, desta vez com Maria Umbelina da Silva, com quem teve mais seis filhos: Antônio Côrtes da Silva (1891), Maria Côrtes da Silva (1894), Júlia Côrtes da Silva (1897), Luiza Côrtes da Silva (1899), Pedro Côrtes da Silva (1900) e José Côrtes da Silva (1903).

“Juca Italiano” e Maria Umbelina

Foi dentro desse grande tronco familiar que surgiria a figura de Pedro Ferreira da Silva, o Pedro Luiz, que se tornou genro de Juca Italiano ao casar-se com sua filha mais velha, Rita Francelina Leite, nascida em 1870. Dessa união nasceu uma extensa descendência, composta por dez filhos: Cândida Rosa Leite, José Pedro da Silva, Maria Rita da Silva, João Pedro da Silva, Ana Rosa de Oliveira, Maria Madalena de Oliveira, Joaquim Pedro da Silva, Pedro Luiz da Silva, Antônio Pedro da Silva e Rita Francelina Leite. A vida, porém, reservou novamente um destino semelhante ao ocorrido com o sogro. Em 1905, Rita Francelina Leite faleceu ao dar à luz sua filha caçula. Em homenagem à mãe falecida, a criança recebeu o mesmo nome: Rita Francelina Leite.

Viúvo e responsável por uma numerosa família, Pedro Luiz voltou a casar-se algum tempo depois. Sua segunda esposa foi Rosa Francelina Côrtes, a filha caçula do primeiro casamento de Juca Italiano, nascida justamente no parto em que sua mãe havia falecido.

Dessa segunda união nasceram mais quinze filhos: Adelina Rosa Côrtes, Zózimo Ferreira da Silva, Maria Rosa Côrtes, José Ferreira Côrtes, Geraldino Ferreira Côrtes, Orlando Ferreira da Silva, Avelino Ferreira da Silva, Sudário Ferreira da Silva, João Ferreira da Silva, Honorato Ferreira da Silva, Sebastião Ferreira da Silva, Guiomar Rosa Côrtes, Gaspar Ferreira da Silva, Terezinha Rosa Côrtes e Onofre Ferreira da Silva.

Além desses, Pedro Luiz teve ainda outros cinco filhos que faleceram ainda na infância, algo relativamente comum nas famílias rurais brasileiras do final do século XIX e início do século XX, quando as condições de saúde e assistência médica eram bastante limitadas. Ao todo, Pedro Luiz foi pai de cerca de 30 filhos, dos quais 25 chegaram à idade adulta e constituíram suas próprias famílias. A descendência resultante foi extraordinariamente numerosa. Estima-se que tenha tido aproximadamente 180 netos, e cerca de 1000 bisnetos, formando um dos maiores ramos familiares da região. Ao longo da vida, Pedro Luiz tornou-se uma figura respeitada na comunidade rural. Sua família espalhou-se por diversas fazendas e localidades contribuindo para o povoamento e desenvolvimento social da região. Pedro Ferreira da Silva faleceu na Fazenda Mata Grande, em 12 de junho de 1949, aos 85 anos de idade.

Seu legado permaneceu vivo através de uma vasta descendência que ajudou a moldar a história social e familiar de Serra do Salitre e de outras localidades do interior mineiro. Hoje, muitos dos moradores da região descendem direta ou indiretamente desse patriarca cuja memória permanece ligada às origens de diversas famílias tradicionais.

Dessa forma, a história aqui apresentada revela não apenas a formação territorial do antigo município de Araxá e seus desmembramentos, mas também a profunda interligação entre família, migração e construção social no interior de Minas Gerais. A trajetória de Luís Manoel Leite e de seus descendentes exemplifica como indivíduos e linhagens familiares desempenharam papel decisivo na ocupação, organização e desenvolvimento da região, deixando marcas que ultrapassam gerações. Por meio de iniciativas como a fundação de núcleos urbanos, a doação de terras e a formação de extensas redes familiares, esses personagens contribuíram diretamente para a consolidação de comunidades que ainda hoje preservam suas origens. Assim, entre documentos históricos, tradições orais e memórias familiares, constrói-se uma narrativa que evidencia a continuidade entre passado e presente, ressaltando a importância da preservação dessas histórias para a compreensão da identidade regional.

 

Fontes: Projetocompartilhar.org;  Familysearch.org;  arquivos do Fórum de Patrocínio; periódico Domínios de pecuária e enxadachins, Geraldo Fonseca; arquivos da Paróquia de Nossa Senhora do Patrocínio e da Torre do Tombo, Portugal. Contribuições de Elisabete Cortes Carvalho e Nely Caixeta.