Pressão do petróleo em bens industriais reduz influência desinflacionária sobre IPCA

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Mai 30, 2026 - 12:00
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Pressão do petróleo em bens industriais reduz influência desinflacionária sobre IPCA

O choque de oferta global causado pela guerra no Oriente Médio, que afetou o fornecimento de petróleo e outras matérias-primas e insumos para diversas cadeias produtivas, está alterando a dinâmica desinflacionária de um grupo que, até então, era o que menos causava preocupação em economistas e no Banco Central.

Embora ainda longe de pressionarem o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), os bens industriais começaram a mostrar tendência de alta após o conflito e avançaram a 0,61% em abril – quase o dobro da taxa de 0,32% observada no mês anterior -, movimento que, para profissionais do mercado, vai persistir no segundo semestre.

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Em 12 meses, o aumento destes itens ainda está consideravelmente abaixo do IPCA, em 2,41%, ante 4,39% do índice cheio. Mas, segundo economistas ouvidos pelo Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado), pode alcançar perto de 4% ao fim do ano, deixando de ser uma grande ajuda para a queda da inflação. As projeções representam aceleração em relação a 2025, quando esse segmento subiu apenas 2,39%.

Com peso de cerca de 23% na cesta de consumo do IPCA, os itens industriais têm exibido evolução tranquila nos últimos anos e em boa parte do primeiro semestre. Como esse setor da inflação é composto por bens comercializáveis, ou seja, que podem ser importados ou exportados, há uma elevada correlação com o dólar, que acumula desvalorização de quase 9% frente ao real em 2026. Mas dados do atacado já indicam que o bom comportamento dos bens industriais parece estar ficando para trás, apesar da depreciação da divisa americana.

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Estrategista de inflação da Warren Investimentos, Andréa Angelo destaca que o último Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna (IGP-DI), que calcula a variação de preços ao produtor, já mostrou reversão do quadro benigno dos bens industriais. Um núcleo complementar do atacado que exclui gás, minério de ferro e alimentos, que a corretora gosta de analisar como “core industrial”, subiu a 2,5% no último mês – maior taxa para abril desde, pelo menos, 2010 – ganho de fôlego que em breve chegará ao consumidor.

“O aumento do preço do petróleo passou a pressionar de forma disseminada os índices de preços em abril, elevando custos industriais e logísticos”, observou Matheus Dias, economista do Instituto Brasileiro de Economia da FGV (FGV-Ibre), instituição responsável pelo cálculo dos IGPs.

Chama atenção, por exemplo, menciona Andréa, a disparada de embalagens plásticas, que passou de 33% a 38% de março a abril. Se, no momento, não há influência de aceleração vinda do câmbio, fica claro que a pressão é originada pelo choque da guerra, diz a economista, para quem os bens industriais devem encerrar o ano perto de 3,2% no IPCA. “No início do ano, achávamos que os itens industriais seriam um vetor de desinflação, mas isso se reverteu”.

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Roberto Secemski, economista-chefe para Brasil do Barclays, nota que o avanço de itens de higiene pessoal explicou dois terços – ou seja, 0,2 ponto do 0,3 ponto de alta – dos bens industriais em abril ante março. A combinação de preços mais caros de matérias-primas e fretes, com alguma resiliência do consumo em razão de medidas de estímulo, tais como a isenção maior do Imposto de Renda, por exemplo, podem dar suporte à tendência altista de produtos industrializados, diz Secemski, ainda que o bom desempenho do real ante o dólar contribua para moderar o ritmo de repasses.

O economista acrescenta, ainda, que viu um começo de ano mais pressionado do que o antecipado em itens como aparelhos eletroeletrônicos e celular, entre outros. “Embora sigam no campo negativo em 12 meses, eles deixaram as mínimas, alguns com aumentos mensais relevantes”, aponta o economista do banco britânico – possivelmente por causa do aumento no imposto de importação. A alta foi parcialmente revertida, observa ele, mas segue afetando certos componentes eletrônicos.

O Barclays abriu 2026 prevendo avanço anual de 2,9% para os itens industriais no IPCA, destaca Secemski, número que está em 3,8% atualmente, ante 5% estimados para o índice de inflação cheio. A previsão, ressalta, conta com fôlego maior desta parte da inflação na segunda metade do ano.

Para o economista da gestora Quantitas João Fernandes, boa parte da aceleração recente nos bens industriais reflete, de fato, os efeitos da alta na cadeia do petróleo sobre o Brasil, mas ele cita outro vetor importante para o movimento: o comportamento da economia chinesa. Fernandes lembra que o país asiático vinha de uma conjuntura interna de desaceleração econômica e inflação baixa, o que fez com que os produtos exportados ficassem mais baratos, ajudando a moderar a inflação global dos últimos 18 meses.

“Agora com a guerra isso virou: a China é muito exposta à importação de petróleo do Golfo, e a alta se traduziu numa inflação mais elevada de modo geral, afetando a cadeia de bens e encarecendo os itens exportados pelo país. Esses bens estão chegando a preços maiores nos emergentes, elevando a inflação”, destaca.

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Fernandes menciona que, embora o acumulado em 12 meses dos bens industriais subjacentes – medida que exclui itens tradicionalmente voláteis – permaneça controlado, em 2,17% até abril, outras métricas indicam preocupação. Pelo critério da média móvel trimestral anualizada e dessazonalizada, por exemplo, ele nota que esse grupo encerrou o ano passado em 1,40%, mas vem subindo consistentemente, fechando o IPCA de abril em 3,64%. “Ou seja, se o nível da ponta permanecer igual ao longo dos próximos meses, o acumulado dos bens industriais deve subir ao longo do tempo”, diz.

Além disso, acrescenta o economista, há expectativa de que a inflação de itens de vestuário comece a captar à frente um efeito altista do preço do algodão, que ainda não foi sentido. “O petróleo eleva o custo do poliéster, e como o algodão é substituto, a demanda por ele aumenta”, frisa Fernandes.

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