MEMÓRIAS E HISTÓRIAS : Migração, Genealogia e Formação Regional: Das Vertentes do Rio das Mortes aos Sertões da Serra da Canastra
Migração, Genealogia e Formação Regional: Das Vertentes do Rio das Mortes aos Sertões da Serra da Canastra
Fotografia antiga da Cachoeira Casca D’Anta, Serra da Canastra. Arquivo Público Mineiro
Durante o século XVIII, a migração de pessoas saindo da região de São João del-Rei — incluindo seus núcleos vizinhos como Prados, São Francisco do Onça e Lagoa Dourada — em direção aos sertões do oeste mineiro ocorreu principalmente pela expansão da mineração, pela abertura de caminhos para Goiás e pela busca de novas terras para criação de gado e abastecimento das vilas auríferas. Essa região das Vertentes do Rio das Mortes funcionava como uma das principais portas de saída para o interior do Brasil colonial.
Os deslocamentos seguiam antigas trilhas indígenas adaptadas pelos colonizadores, transformadas em caminhos de circulação de tropas, mercadorias e pessoas. A partir dessa área de origem, os viajantes seguiam rumo a Oliveira e Tamanduá (atual Itapecerica), depois para Formiga e Piumhi. Esse eixo integrava as chamadas picadas do sertão ou caminhos de Goiás, que conectavam o centro minerador de Minas Gerais aos sertões do oeste e às áreas de expansão goiana. Ao longo dessas rotas circulavam tropas de mulas transportando sal, ferramentas, alimentos e outros produtos essenciais para os núcleos mineradores e para os novos povoados em formação.
Ao alcançarem a região da Serra da Canastra, os viajantes se deparavam com um território ainda pouco ocupado no início da colonização, composto por campos naturais amplos e favoráveis à pecuária. Nessa área surgiram diversos núcleos de ocupação que se tornaram destinos importantes dessa migração, como o povoado Santana do Bambuí (Bambuí), de Nossa Senhora do Livramento do Piuí (relacionado à região de Piumhi), Espírito Santo da Forquilha — antigo nome de Delfinópolis — e São João Batista da Serra da Canastra, ligado a antigas ocupações religiosas e de passagem na serra.
Nesse contexto de avanço sobre os sertões e concessão de terras, destaca-se a atuação de alguns aventureiros que, acompanhando esse movimento de ocupação, passaram a requerer e adquirir sesmarias na região. Entre eles estava José Ferreira Baptista Telles Fayao, que obteve terras na área de Espírito Santo da Forquilha, atual município de Delfinópolis, contribuindo para o processo inicial de fixação de ocupantes e formação de propriedades rurais na região da Canastra.
Com o avanço da ocupação, surgiram pousos, fazendas e pequenos arraiais voltados à criação de gado e ao apoio às rotas de tropeiros. A presença de migrantes vindos de São João del-Rei, Prados e Lagoa Dourada foi fundamental nesse processo, levando consigo práticas agrícolas, estruturas familiares, mão de obra escravizada e redes de comércio que ajudaram a consolidar os novos povoados.
A expansão continuava em direção aos campos de Araxá, ao Desemboque e ao Alto Paranaíba, onde se formaram também núcleos como o Arraial das Antas, que posteriormente se transformou na cidade de Tapira. Esses espaços estavam ligados às rotas de pecuária, circulação de tropas e ocupação gradual do interior. Assim, ao longo do século XVIII, consolidou-se um corredor de povoamento que partia das Vertentes do Rio das Mortes e avançava até os sertões da Serra da Canastra e dos campos de Araxá, estruturando a ocupação histórica do oeste mineiro.
Nessa região próxima às nascentes do rio São Francisco, o processo de ocupação também consolidou um conjunto importante de saberes e costumes ligados ao modo de vida sertanejo. A criação extensiva de gado, a vida em grandes fazendas isoladas e a necessidade de conservação de alimentos deram origem a práticas tradicionais que permanecem até hoje. Entre elas destaca-se a produção artesanal do queijo Canastra, que surgiu como solução prática dos moradores locais para aproveitar o leite em um contexto de longas distâncias e difícil acesso aos mercados. Esse conhecimento foi transmitido de geração em geração, tornando-se parte essencial da identidade cultural da região da Canastra e um dos símbolos mais reconhecidos da cultura mineira.
Raízes que Moldaram a Canastra
José Ferreira Baptista Telles Fayão (1804–1866) e suas Redes Familiares
José Ferreira Baptista Telles Fayão destacou-se como uma importante figura da região de Ibertioga e Lagoa Dourada, em Minas Gerais, durante o século XIX. Pertencente a uma tradicional família mineira, era filho do Capitão José Ferreira da Silva Telles Fayão e de Felícia Josefa de Jesus da Silva, também identificada em alguns registros como Felícia Josefa de Souza. Pelos laços paternos, era neto de Antônio Ferreira da Silva e de Ana Maria Ribeira Teles Fayão; já por parte materna, descendia de Francisco José Ferreira de Souza e de Antônia Rita de Jesus Xavier, esta a irmã caçula de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, mártir da Inconfidência Mineira. Dessa forma, José Ferreira Baptista Telles Fayão ligava-se indiretamente a uma das famílias mais emblemáticas da história colonial brasileira.
“Felícia: Aos sete dias do mêz de novembro de mil sete centos e settenta nesta matris de São João Dell Rey batizei e pus os santos óleos a Felícia, filha legítima de Francysco José Ferreira de Souza e sua mulher Antonia Rita de Jesus, forão padrinhos Antonio Gomes de Souza, solteiro, por procuração que apresentou Jerônimo da Silva Guimarães, Madrinha Maria Vitória de Souza, casada, todos desta Freguesia, ecxepto o que é da Freguesia de Carijós. O Vigário Mathias Antonio de Souza”
Nascido por volta de 1804, José Ferreira Baptista Telles Fayão consolidou importantes alianças familiares ao casar-se, em 24 de julho de 1833, com Francisca Cândida de Rezende, que foi batizada na Capela de Santo Antônio da Lagoa Dourada, então filial de Prados. Francisca era filha de Manoel de Jesus Ribeiro de Rezende e de Floriana Joaquina de Santa Eufrásia. Pelo lado paterno, era neta de Severino Ribeiro e Josefa Maria de Rezende. Severino por sua vez, era filho de Estevão Ribeiro e Leonarda Maria de Souza, e Josefa era filha de João de Resende Costa e Helena Maria de Jesus.

"A Fé contra a Infâmia: O Refúgio da Família Xavier no Sacerdócio"
A Pena de Infâmia aplicada contra Tiradentes foi uma das punições mais severas do Direito Colonial, baseada nas Ordenações Filipinas para o crime de lesa-majestade. Além da execução cruel e do esquartejamento de Joaquim José da Silva Xavier, a sentença determinava a morte civil de toda a sua linhagem, declarando seus descendentes, irmãos e sobrinhos "infames" até a terceira geração. Isso significava que os familiares perdiam o direito de exercer cargos públicos, portar patentes militares, receber títulos de nobreza ou até mesmo testemunhar em tribunais, funcionando como uma tentativa da Coroa Portuguesa de apagar não apenas o patrimônio físico, mas também a honra e a memória da família Xavier. Essa marca foi contornada através de estratégias sociais e religiosas, com a própria família Xavier buscando refúgio no clero. Já na geração de Tiradentes, seus irmãos Domingos da Silva Xavier e Antônio da Silva dos Santos eram padres, o que ajudou a manter a coesão familiar após a tragédia. O Capitão José Ferreira da Silva Teles Fayão, pai de José Ferreira Baptista Telles Fayão, é o exemplo perfeito da continuidade dessa tática: casado com Felícia Josefa, sobrinha de Tiradentes, ele viu seus filhos, os Padres Francisco José e Antônio José Ferreira de Sousa, além de seu sobrinho, o Monsenhor José Augusto, buscarem o sacerdócio para obter uma jurisdição especial e recuperar o prestígio negado pelas leis reais. O caso mais emblemático foi o do próprio Capitão que, em 1841, já viúvo aos 82 anos e após uma vida de militar e fazendeiro, solicitou a habilitação "de genere" para se tornar padre. Ao ingressar no clero, ele utilizou a autoridade da Igreja para selar a reabilitação moral de sua linhagem, transformando uma família perseguida em uma referência de piedade e liderança religiosa no interior de Minas Gerais.
Para fugir do estigma político, da perseguição da Coroa e de barreiras comerciais ou militares, muitos parentes e aliados na região optaram por suprimir sobrenomes marcantes que pudessem ligá-los aos revoltosos, adotando nomes mais genéricos (como Ferreira, Baptista ou Silva). Documentos históricos e plataformas como o Projeto Compartilhar e o Geneaminas mostram que o próprio José Ferreira Baptista (nascido em Ibertioga em 1804 e casado em Lagoa Dourada com Francisca Cândida de Rezende) aparece alternadamente com e sem os sobrenomes "Telles Fayão" nas escrituras. Seus irmãos e filhos muitas vezes distribuíram esses nomes de forma fragmentada (uns assinando apenas Ferreira de Rezende, outros mantendo o Telles Fayão).
Com o passar dos anos, as sementes plantadas pelos patriarcas e matriarcas geraram frutos abundantes. O chamado inicial: Filhos e filhas decidiram ingressar em seminários e conventos, assumindo os votos de castidade, pobreza e obediência. O efeito multiplicador: O testemunho alegre dos primeiros a seguir esse caminho motivou irmãos, primos e sobrinhos. A ramificação na Igreja: Os descendentes se espalharam por diversas frentes, atuando no clero diocesano, em ordens contemplativas e em missões ativas pelo mundo. Essa sucessão de respostas afirmativas a Deus transformou a história familiar em um verdadeiro viveiro de santidade. A decisão de tantos membros em consagrar suas vidas ao serviço do Reino demonstra que a herança mais valiosa deixada por seus antepassados não foi material, mas sim uma fé viva, capaz de mover corações através das eras.
José Ferreira Baptista Telles Fayão e Francisca Cândida de Rezende;
“Aos Vinte e quatro dias de Julho de mil oitocentos e trinta e tres, n'esta capella de S. Antonio de Lagôa Dourada, filial de Prados, depois das nunciações canônicas e mais formalidades prescriptas, não apparecendo impedimento algum com palavras de presente na forma do Ritual Romano, em presença do Pe Pedro Ribeiro de Rezende, devidamente auctorizado pelo Vigário Antonio Rodrigues Chaves e demais pessoas assistentes, entre as quaes, o Vigário Antonio Rodrigues Chaves e D. Valentina Joaquina da Silva, receberam-se em matrimônio os nubentes José Ferreira Baptista Telles Fayão e Francisca Candida de Rezende, elle nascido e baptizado na Capella de S. Antonio de Ibertioga, filho legítmo do Capitão José Ferreira da Silva Telles Fayão, e Felícia Josepha da Silva; e ella, nascida e baptizada em São Francisco do Onça, filha legítima de Manoel Ribeiro de Rezende e Florianna Joaquina de Santa Euphrásia, aos quaes nubentes, em seguida, lhe foram dadas as bençãos: do que tudo para constar, fiz lavrar este assentamento que assigno. O Vigº Antonio Maurício de Medeiros Gouvêa”
Da união entre José Ferreira Baptista Telles Fayão e Francisca Cândida de Rezende nasceu numerosa descendência de quinze filhos. Após o casamento, o casal mudou-se para a região da Serra da Canastra, no termo de Piumhi, onde se estabeleceram e deram continuidade à sua família. Entre os filhos destacam-se Maria Leopoldina, Messias Jesuína, Manoel Ferreira de Rezende Baptista e Anna Rita de Resende, cujos descendentes mantiveram vínculos consanguíneos por meio de inúmeros casamentos entre primos e entre tios e sobrinhas, nas regiões de Araxá, Tapira, São Roque de Minas, Delfinópolis e Sacramento. A descendência dos demais filhos não é menos importante, mas será objeto de um trabalho futuro, dada a complexidade e a intrincada rede genealógica formada ao longo das gerações.
- Maria Leopoldina de Rezende (1838–1904) casada com José Maria Ribeiro de Souza
- Messias Jesuína de Rezende casada com Francisco Ribeiro de Mello
- Manoel Ferreira de Rezende Baptista (1856–1934) casado com Maria Francelina Ribeiro de Souza
- Anna Ritta de Rezende casada com José Alves de Mello
- Francisco Ferreira de Rezende Baptista casado com Jerônima Maria de Lima
- Joaquim Ferreira de Rezende Baptista
- José Ferreira de Rezende Baptista casado com Rosa Ubaldina
- Antônio Carlos Ferreira de Rezende casado com Ana Maria do Rosário
- Rita Cassiana de Rezende casado com Lázaro Simeão de Mello
- Francisca Cândida de Rezende casada com José Antonio de Resende
- Severiano Ferreira de Rezende
- Prudente Ferreira de Rezende casado com Gertrudes Victalina do Espírito Santo
- Gabriel Ferreira de Rezende casado com Francisca Alves de Resende
- Domiciano Ferreira de Rezende
- Maria José de Rezende
1-Maria Leopoldina de Rezende (1838–1904) casada com José Maria Ribeiro de Souza, filho de Antonio Ribeiro de Souza e Maria Francelina de Jesus
- Maria Francelina Ribeiro de Souza, casada com Manoel Ferreira de Rezende, seu tio, filho de José Ferreira Baptista Telles Fayão e Francisca Cândida de Resende
- Francisco Ribeiro de Souza, casado com Thereza Thomásia da Silva
- José Ribeiro de Resende, casado com Deolinda Guilhermina de Souza, filha de Guilhermino Simões de Lima e Thereza Maria de Jesus
- Antônio Ribeiro de Souza, casado com Rita de Cássia de Oliveira
- Leopoldino Ribeiro de Souza, casado com Ana Jacintha da Silva, filha de Manoel Affonso da Silva e Emirena Maria de Jesus
- João Ribeiro de Souza, casado com Maria Januária Borges, filha de Matheus Simões de Lima e Rita Januária Borges
- Orosino Ribeiro de Souza, casado com Severiana Maria Ribeiro
- Ubaldino Ribeiro de Souza, casado com Corina Maria Borges, filha de Mateus Corina de Souza e Rita Corina Borges
- Ozório Ribeiro de Souza

Família de João Ribeiro de Souza e Maria Januária Borges
2-Messias Jesuína de Rezende casada com Francisco Ribeiro de Mello, filho de João Ribeiro de Rezende e Joanna Bernardina do Amor Divino
- Francisco Ribeiro de Resende, casado com Maria Brígida de Resende, filha de José Antonio de Rezende e Anna Maria José Cândido
- José Ribeiro de Mello casado com Flausina Maria de Jesus
- Ana Jesuína de Rezende casada com Levindo Simões de Souza, filho de Guilhermino Simões de Lima e Thereza Maria de Jesus
- Maria Augusta Ribeiro de Rezende casada com José Francisco das Neves, filho de João Francisco das Neves e Joaquina Antonia dos Santos
- Francisca Cândida de Rezende casada com José Martins de Araújo
- João Ribeiro de Mello casado com Francisca de Castro Mello, filha de Salviano Gonçalves de Castro e Maria Augusta da Conceição
- Brígida Jesuína de Rezende casada com Brígido de Oliveira Mello, filho de Antonio Carlos de Oliveira e Carlota Maria de Jesus
- Deolinda Bernardina de Rezende casada com José Alves Ferreira, filho de Flávio Ferreira de Rezende Baptista e Maria Alves de Rezende
- Christino Ribeiro de Rezende casado com Maria Guilhermina de Rezende, filha de José Alves de Rezende e Guilhermina Thereza de Lima
- Joaquim Ribeiro de Rezende casado com Deolinda Bernardina do Amor Divino, filha de Francisco José Ferreira Baptista e Francisca Cândida de Rezende
- Amâncio Ribeiro de Rezende casado com Elisa Guilhermina Simões de Souza, filha de Braz Simões de Souza e Anna Alves de Rezende
- Albina Ribeiro de Rezende casada com Octávio de Paula Fontoura
- Realino Ribeiro de Rezende casado com Ernestina Cândida de Rezende, filha de Manoel Ferreira de Rezende e Maria Francelina Ribeiro de Souza
- Manoel Ribeiro de Rezende

Francisco Ribeiro de Mello e sua neta Maria Alves de Rezende (“Maria Paixão”)
3- Manoel Ferreira de Rezende Baptista (1856–1934) casado com Maria Francelina Ribeiro de Souza, filha de Maria Leopoldina de Rezende e José Maria Ribeiro de Souza:
Família de Manoel Ferreira de Rezende Baptista e Maria Francelina Ribeiro de Souza
Filhos:
- Rita Cândida Borges, casada com Ilídio Rodrigues Valle, filho de Francisco Rodrigues Valle e Gabriela Franco Carneiro
- Franklin Ferreira de Rezende, casado com Alexandrina Augusta de Rezende, filha de Francisco Ribeiro de Rezende e Maria Brígida de Rezende
- Francisca Leopoldina de Rezende, casada com Boaventura Olegário de Alvarenga, filho de Onório Joaquim de Alvarenga e Maria Rosa de Jesus
- Ernestina Cândida de Rezende, casada com Realino Ribeiro de Rezende, Filho de Francisco Ribeiro de Mello e Messias Jesuína de Rezende
- Adelina Cândida de Rezende, casada com Josias Simões de Rezende, filho de Levindo Simões de Souza e Ana Jesuína de Rezende
- José Maria Ferreira de Rezende, casado com Artemira de Castro Fontoura
- José Ferreira de Rezende
- Alzira Cândida de Rezende, casada com Prudente Simões de Rezende, filho de Levindo Simões de Souza e Ana Jesuína de Rezende
- Hilderico Ferreira de Rezende, casado com Ana Rodrigues de Rezende, filha de Agostinho Rodrigues da Cunha e Valentina Alves de Rezende
- Maria Francelina de Rezende, casada com Hermínio Rodrigues de Rezende, filho de Agostinho Rodrigues da Cunha e Valentina Alves de Rezende
- Manoel Ferreira de Rezende

Alzira Cândida de Rezende, Prudente Simões de Rezende, Irmã Yolanda, Salomé e Irmã Edith

Hilderico Ferreira de Rezende, Ana Rodrigues de Rezende e Waldette
4- Anna Rita de Rezende (1843-1908) e José Alves de Mello (1825-1875)

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José Alves de Mello nasceu no Desemboque, em 1826, filho de Manoel Alves Moreira e Anna Bernardina de São José. Pelo lado materno, era neto de José Pereira de Mello e Bernardina Claudina do Sacramento. Faleceu em 12 de outubro de 1875, na Fazenda das Posses, em São Roque de Minas, onde exercia a função de Juiz de Paz.

“José: Aos vinte nove de Maio de mil oito centos e vinte seis baptizou solenemente, e pos os Stos óleos o Revdo VIgro José Severino Ribeiro a José inocente filho legítimo de Manoel Alves Moreira, e de Anna Bernardina de S. José, forão Padrinhos José Antonio Simoins, e Gracianna Joaquina de Sza; e para constar fasso o assento, O Coadjutor João Glz de Mello”
A filiação de seu pai Manoel Alves Moreira permanece incerta. Segundo a tradição oral preservada pela família, Manoel teria abandonado a esposa e os filhos ainda jovens, deixando sob responsabilidade de Anna Bernardina a criação da prole e a administração da expressiva propriedade rural. Posteriormente, teria se transferido para São Sebastião dos Aflitos, em Ubá, Minas Gerais,onde constituiu nova família e veio a falecer.
Contudo, conforme informações constantes no Processo TJMG/Coarpe 51501465, Manoel Alves Moreira já era citado como residente na região de Piumhi por volta de 1820, estabelecido nas imediações das Fazendas do Esmeril e Fundão, então vinculadas ao patrimônio de seu sogro e família. Nesse período, aparece casado com Anna Bernardina de Jesus (ou de São José), com quem teve três filhos: José, Maria Bernardina e Pedro, com extensa descendência na região de Tapira . Por volta de 1825, por motivos não esclarecidos, Manoel teria se afastado da região. O mesmo conjunto documental indica que, décadas depois, o filho José teria se deslocado até São Sebastião dos Aflitos (atual Ervália), onde teria encontrado membros da segunda família constituída por Manoel nessa localidade, já então falecido. Posteriormente, registros apontam que Basílio José Dias, filho de Maria Alves — descendente de José e de sua segunda esposa — reivindicou direitos sobre o patrimônio familiar, acrescentando que ele teria recebido e vendido, em 1880, a parte que lhe coube.
Os documentos evidenciam ainda que as propriedades rurais pertencentes a Manoel Alves Moreira e Anna Bernardina de Jesus constituíam um expressivo patrimônio territorial em Minas Gerais, especialmente nas regiões de São Roque, Piumhi, Bambuhy e arredores. Destaca-se a Fazenda do Esmeril, descrita em ação de divisão como possuindo cerca de oito mil alqueires de terras de cultura, campos e cerrados. As fazendas Esmeril e Fundão teriam origem nesse patrimônio familiar.
Filhos e Netos de Anna Rita de Rezende e José Alves de Mello:
1. Maria Alves de Rezende, casada com Flávio Ferreira de Rezende Baptista, seu tio, filho de José Ferreira Baptista Telles Fayão e Francisca Cândida de Rezende;
Filhos: José Alves Ferreira; Francisco Alves Ferreira de Rezende; Sabina Alves de Rezende; Maria Ferreira de Rezende, Belmira Alves de Rezende; Leopoldino Alves Ferreira; Aledino Alves Ferreira; Itelvino Alves Ferreira; Adelino Ferreira de Rezende;
2. José Alves de Rezende, casado com Guilhermina Thereza de Lima, filha de Guilhermino Simões de Lima e Thereza Maria de Jesus;
Filhos: José Guilhermino de Rezende; Ricardo; Maria Guilhermina de Rezende; Isaltino Simões de Rezende; Alvarinda Guilhermina de Rezende; João Alves de Lima; Alversino Alves de Lima; Guilhermina Simões das Neves; Marcionília Simões de Rezende;
3. Francisca Alves de Rezende, casada com Gabriel Ferreira de Rezende, seu tio, filho de filho de José Ferreira Baptista Telles Fayão e Francisca Cândida de Rezende;
Filhos: José Alves Ferreira de Rezende; Avelino Ferreira de Rezende; Maria Ferreira de Rezende; Ana Ferreira de Rezende; Braz Ferreira de Rezende; Clarinda Ferreira de Rezende; Jucelino Ferreira de Rezende; Ubaldino Ferreira de Rezende;
4. Valentina Alves de Rezende, casada com Agostinho Rodrigues da Cunha, filho de Vicente Rodrigues da Cunha e Antonia Francelina das Neves;
Filhos: José Rodrigues de Rezende; João Rodrigues de Rezende; Leolina Augusta de Rezende; José Simões de Souza; Hermínio Rodrigues de Rezende; Juscelino Rodrigues de Rezende; Laudelina Rodrigues de Rezende; Ana Rodrigues de Rezende; Jovínia Rodrigues de Rezende; Antonino Rodrigues de Rezende; Euclides Rodrigues de Rezende; Ovídio Rodrigues de Rezende;
5. Francisco Alves de Rezende, casado com Maria Magdalena de Jesus, filha de Prudente Ferreira de Rezende e Gertrudes Victalina do Espírito Santo;
Filhos: José Alves de Rezende; Elisa Alves de Rezende; América Alves de Rezende; Almerinda Alves de Rezende; Ana Alves de Rezende; Claristina Alves de Rezende; Gertrudes Alves de Rezende; Eurípedes Alves de Rezende; Alzira Alves de Rezende; Francisca Alves de Rezende; Maria Alves de Rezende; Odorico Alves de Rezende;
6. João Alves de Rezende, casado com Georgina Nogueira de Souza, filha de Maximiliano Nogueira de Souza e Emiliana Jacintha da Costa;
Filhos: Adelino Alves de Rezende; Carmelina Alves de Rezende; José Nogueira; Almírio Alves de Rezende; Alcides Alves de Rezende; Geraldo Alves de Rezende; Adélia Alves de Rezende; Jovina Alves de Rezende; Maria Alves de Rezende.
7. Joaquim Alves de Rezende;
8. Anna Alves de Rezende, casada com Braz Simões de Souza, filho de Guilhermino Simões de Lima e Thereza Maria de Jesus;
A filha Anna Alves de Rezende (1868-1941) casou-se com Braz Simões de Souza (1856-1928), por volta de 1886, em São Roque de Minas. Dessa união nasceram pelo menos doze filhos, sendo cinco homens e sete mulheres.
Filhos:
- Maria Alves Souza, nascida em 1887 casada com José Ribeiro de Souza, filho de José Ribeiro de Rezende e Deolinda Guilhermina de Souza;
- Elisa Guilhermina Simões de Souza (1888–1951), casada com Amâncio Ribeiro de Rezende, filho de Francisco Ribeiro de Mello e Messias Jesuína de Rezende;
- Izoldino Simões de Rezende (1892–1981) casada com Carmelina Ribeiro de Souza, filha de José Ribeiro de Rezende e Deolinda Guilhermina de Souza;
- Guilhermina Alves de Souza (1894–1973) casada com Olegário Ribeiro de Souza, filho de José Ribeiro de Rezende e Deolinda Guilhermina de Souza;
- Ana Simões de Souza, nascida em 1895 casada com Antonio Simões Borges, filho de Manoel Rufino Borges e Júlia Maria Borges;
- José Simões de Souza (1896–1978) casada com Maria Rodrigues de Rezende, filha de Agostinho Rodrigues da Cunha e Valentina Alves de Rezende;
- João Simões de Souza (1899–1933) casada com Ana Alves de Rezende, filha de Francisco Alves de Rezende e Maria Magdalena de Jesus;
- Altina Alves de Souza (1900_1940) casada com João Amâncio da Costa, filho de Francisco Amâncio da Costa e Virgilina Rosa de Jesus;
- Belmira Simões de Rezende (1903–1971) casada com José Rodrigues de Rezende, filho de Agostinho Rodrigues da Cunha e Valentina Alves de Rezende;
- Alzira Simões de Souza, nascida em 1908 casada com Adelino Alves de Rezende, filho de João Alves de Rezende e Georgina Nogueira de Souza;
- Braz Simões de Souza (Zico), falecido com 14 anos;
- Geraldo Alves de Souza.
Braz Simões de Souza

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Braz Simões de Souza nasceu em 28 de março de 1856, na região da Serra da Canastra, em São Roque de Minas. Era filho de Guilhermino Simões de Lima, então com 25 anos, e de Thereza Maria de Jesus, com 21 anos de idade. Por volta de 1886, casou-se com Ana Alves de Rezende e dessa união nasceram pelo menos doze filhos. Faleceu em 7 de junho de 1928, aos 72 anos, em Araxá, onde foi sepultado. Sua ascendência paterna seguia a seguinte linha genealógica: Braz Simões de Souza era filho de Guilhermino Simões de Lima; neto de Braz Simões de Lima Filho; e bisneto de Braz Simões de Lima, conforme demonstrado no quadro a seguir:

Braz tinha os seguintes irmãos:
- Levindo Simões de Souza, casado com Ana Jesuína de Resende, filha de Francisco Ribeiro de Mello e Messias Jesuína de Resende;
- Deolinda Guilhermina de Souza, casada com José Ribeiro de Resende, filho de José Maria Ribeiro de Souza e Maria Leopoldina de Rezende;
- Nominato Simões de Lima;
- Elísia Simões de Souza;
- Guilhermina Thereza de Lima, casada com José Alves de Rezende, filho de José Alves de Mello e Anna Rita de Resende;
- João Simões de Souza.
Guilhermino Simões de Lima, pai de Braz tinha também os irmãos Ernesto Simões de Lima e Matheus Simões de Lima, casados, respectivamente, com Anna Januária Borges e Rita Januária Borges, ambas filhas de Januário Martins Borges e Leodora Lucinda Borges.

Altina Alves de Souza e João Amâncio da Costa

Alzira Simões de Souza e Adelino Alves de Rezende

Família de José Simões de Souza e Ana Rodrigues de Rezende

Família de Guilhermina Alves de Souza e Olegário Ribeiro de Souza

Elisa Guilhermina Simões de Souza e Amâncio Ribeiro de Rezende

Filhas de Altina Alves de Souza: Maria, Olga, Altina, Nair, Nezilda e Santos Dumont Guimarães.

Maria Amâncio Alves e Renato Benevides de Avila
“O legado: A Fé que Atravessou Gerações”
Se, em um primeiro momento, a entrada de alguns membros dessa linhagem na vida religiosa esteve ligada mais a questões políticas, sociais e familiares do que propriamente a um chamado vocacional, entre os descendentes floresceu uma autêntica vocação religiosa, vivida com profunda fé e entrega. O testemunho dos primeiros a seguir esse caminho tornou-se um verdadeiro efeito multiplicador. Assim, diversos membros das Famílias Resende, Alves, Ribeiro, Souza, Neves, espalharam-se por diversas frentes da Igreja, atuando no clero, em ordens contemplativas e em missões ativas pelo mundo. A decisão de tantos membros em consagrar suas vidas ao serviço do Reino demonstra que a herança mais valiosa deixada pelos antepassados não foi material, mas espiritual: uma fé viva, capaz de atravessar gerações e mover corações. Entre os membros dessa linhagem que seguiram a vida religiosa lembramo-nos de Padre Henrique Ribeiro de Britto SDB, Dagmar Ribeiro de Souza (Irmã Domitila O.P.), Ormesinda Neves (Irmã Myriam O.P.), Maria Belmita de Resende (Irmã Edith O.P.), Maria Conceição de Resende (Irmã Maria Yolanda O.P.), Ana Luzia de Resende (Irmã Abadia O.P.), Marilda Simões de Resende (Irmã Josiane O.P.), Neusa Resende (Irmã Abadia O.C.D.) e Irmã Vanda Heleusa O.P.

Padre Henrique Ribeiro de Britto

Irmã Domitila Ribeiro Borges
Homenagem à Irmã Abadia: Uma Vida que Floresceu na Chácara das Freiras

Recebeu no batismo o nome civil Ana Luzia de Resende e, na vida religiosa, adotou o nome de Irmã Abadia O.P., marcando profundamente a história e a memória afetiva de Araxá por sua vida simples, dedicada e admirável. Freira dominicana das irmãs do Colégio São Domingos, unia com rara harmonia a espiritualidade religiosa ao amor pela terra e pelo trabalho rural. Cuidava da Chácara São José — conhecida como a “Chácara das Freiras”, mantendo uma rotina de dedicação constante mesmo já em idade avançada. Vestida com seu hábito dominicano e suas inseparáveis botinas, era presença firme e respeitada no ambiente rural, despertando admiração por onde passava. Na chácara, Irmã Abadia acompanhava pessoalmente todos os afazeres do campo. Tirava leite, cuidava dos animais com atenção e carinho, supervisionava as plantações e zelava por cada detalhe da propriedade. Seu olhar atento revelava um profundo senso de responsabilidade, disciplina e amor pela natureza. Não havia tarefa simples ou pequena demais para sua dedicação. Mais do que uma religiosa, era vista como uma verdadeira fazendeira, daquelas que conheciam a terra, respeitavam os ciclos da natureza e compreendiam o valor do trabalho diário. Sua espiritualidade se manifestava não apenas nas orações, mas também na maneira como cultivava a vida ao seu redor — no cuidado com os animais, no cultivo das plantações e no exemplo silencioso de serviço e humildade. Mesmo já bem velhinha, sem o hábito, continuava ativa e presente na rotina da chácara, demonstrando uma força admirável e um compromisso inabalável com sua missão.
Migração, Genealogia e Identidade Regional
Em síntese, a migração que partiu de São João del-Rei e das demais localidades das Vertentes do Rio das Mortes para os sertões da Serra da Canastra ao longo do século XVIII não representou apenas um deslocamento populacional em busca de novas terras e oportunidades econômicas, mas a formação gradual de um vasto corredor de povoamento que articulou mineração, pecuária e redes familiares extensas. Nesse processo, consolidaram-se núcleos de ocupação, caminhos de tropeiros e formas específicas de organização social que moldaram profundamente a ocupação do oeste mineiro. As trajetórias familiares aqui apresentadas evidenciam como essas dinâmicas históricas se entrelaçaram com estratégias de adaptação, alianças matrimoniais e preservação de linhagens, revelando uma complexa teia genealógica que atravessa séculos. Ao mesmo tempo, a permanência de práticas culturais, como a pecuária extensiva e a produção do queijo Canastra, demonstra que esse movimento de ocupação deixou marcas duradouras não apenas no território, mas também na identidade cultural da região, transformando a experiência histórica em herança viva.
Referências: GUIMARÃES, José. As Três Ilhoas. [S.l.]: [s.n.], [19--?]. 3 v. (Série Genealogia Mineira).; IHGMG – Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais. Árvore Genealógica de Tiradentes. Belo Horizonte, 2020.; BORGES, José Dagualberto (Dalguito). Álbum Histórico de Araxá. [S.l.]: [s.n.], 2016.; SILVA, Arthur Vieira de Rezende e. Genealogia Mineira. Belo Horizonte: [s.n.], 1937.; FamilySearch. Árvores familiares e registros paroquiais. Salt Lake City: Intellectual Reserve, Inc. Disponível em: https://www.familysearch.org.; Arquivos Históricos do Cartório de Primeiro Ofício de Araxá.; Arquivo Público Mineiro; Registros paroquiais de São João del-Rei, Prados, Lagoa Dourada, Ibertioga, Piumhi e São Roque de Minas.; Processo TJMG/COARPE nº 51501465.; Colaboração de Márcia Montandon de Lima, Lázara Simões, Marina Carvalho e Waldette Ramos Resende.

