Ação Social Parte IV: Hospital de Brinquedos
Dra. Karina Prado - Advogada, Escritora e Palestrante - Instagram:@karinaprado.adv
E para finalizar janeiro, mês em que a advogada está de férias, escreverei sobre as ações desenvolvidas pelo Hospital de Brinquedos São Francisco de Assis, mais um lindo trabalho da cidade que sempre que posso, faço questão de ajudar.
O Hospital de Brinquedos nasceu em 1988 com Dona Marlene, numa fila de sopa em Araxá. Ela já era voluntária nas casas espíritas quando viu um pai de família, acompanhado da esposa e dos filhos, esperando por uma cesta básica. Pensou no óbvio que quase ninguém enxerga: se faltava comida, como sobraria dinheiro para um brinquedo de Natal?
Naquele mesmo dia, ligou para amigas, pediu brinquedos quebrados, usados, esquecidos em caixas e consertou um por um. No primeiro Natal, doou 400. Sem saber, inaugurava ali uma obra que atravessaria fronteiras e gerações.
Dona Marlene dizia ter uma amizade profunda com Jesus e acreditava ter recebido uma missão: cuidar das crianças. Entregou a casa inteira, tendo a mesma transformada em oficina, depósito, triagem e abrigo de sonhos remendados.
Não havia sala de estar, nem sofá, mas havia muitos brinquedos. Para dormir, tirava-os da cama e os colocava no chão. De manhã, fazia o caminho inverso. Tinha apenas o essencial: mesa, geladeira, fogão, cama, cômoda, guarda-roupa e uma máquina de costura. Até a mesa da cozinha virou bancada de consertos.
Os números cresceram como coisas movidas por convicção: 400, depois mil, depois milhares, até chegar a 20 mil brinquedos em 2021, ano de sua morte. O “Hospital de Brinquedos” ganhou o Brasil após uma reportagem no Globo Repórter, quando vieram doações de todo o país, do Japão e visitas de celebridades. Mas nada disso mudou o centro da história: uma mulher, ferramentas simples e um propósito inegociável.
Seu marido, Marcos Antônio Goulart, que no início ajudava apenas com a logística, acabou se envolvendo por inteiro. Dona Marlene tirou carteira de motorista aos 55 anos para buscar e entregar doações. Em 2017, com apoio coletivo, veio a sede própria. Mesmo assim, a antiga casa continuou cheia: a cidade já sabia onde deixar esperança em forma de brinquedo.
Os brinquedos chegaram a mais de 100 cidades, a comunidades indígenas na fronteira com a Colômbia, à África, em Moçambique. Chegaram também ao Vale do Jequitinhonha, junto com cestas básicas e roupas.
Dona Marlene partiu em 28 de julho de 2021, quando Araxá decretou luto oficial. A família herdou o vazio e a responsabilidade. Desde então, o Hospital de Brinquedos continua com Marco à frente do trabalho, apoio constante da sua filha Omara e toda a família. A instituição mantém o apoio a famílias, gestantes e crianças, tentando preservar o que ela ensinou como a forma mais exigente de fé.
Dona Marlene e o Sr. Marco merecem minha admiração e respeito, porque há milagres que não descem do céu, nascem nas mãos de quem ama, ganham forma em pequenos consertos e se transformam em encanto nos olhos de cada criança que os recebe.
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