MEMÓRIAS E HISTÓRIAS: As raízes de Gonçalo Ferreira da Costa: entre Minas e Cantagalo

Jun 25, 2026 - 14:36
 0
MEMÓRIAS E HISTÓRIAS: As raízes de Gonçalo Ferreira da Costa: entre Minas e Cantagalo

Em estudo anteriormente publicado sobre o Barão de São Francisco das Chagas e seus descendentes, foi feita referência a Gonçalo Ferreira da Costa, identificado então apenas como seu genro e de filiação ainda desconhecida no contexto das informações disponíveis à época. No entanto, com a evolução das pesquisas genealógicas e a ampliação do levantamento documental e familiar, tornou-se possível esclarecer sua origem e reconstituir de forma consistente sua inserção nas redes familiares do século XIX. À luz desses novos dados, apresentam-se a seguir as considerações que permitem situar Gonçalo Ferreira da Costa em seu devido contexto de filiação, alianças e trajetória histórica.

 

 

A trajetória de Gonçalo Ferreira da Costa (1838–1920) não se inicia com seu nascimento, mas com a formação prévia de duas linhagens familiares que, ao longo do final do século XVIII e início do XIX, estruturaram redes de poder entre Minas Gerais e o interior fluminense. Nesse entrelaçamento de origens, destacam-se a família de sua mãe, Maria Thereza de Mello, e o ramo dos Moraes, que mais tarde desempenharia papel central na elite cafeeira de Cantagalo, RJ.

Maria Thereza de Mello nasceu por volta de 1800, em Queluzito, atual Conselheiro Lafaiete, em Minas Gerais, filha de Manoel Bernardes de Carvalho e Maria Rosa de Mello.  Inserida em um meio social já marcado pela expansão da ocupação rural e pela consolidação de famílias ligadas a terra, ao comércio local e às primeiras estruturas de poder regional. Sua formação ocorreu em um contexto em que Minas, após o declínio do ouro, reorganizava sua economia em torno da agricultura, da criação e da abertura de novas áreas de ocupação no interior, estabelecendo as bases sociais que mais tarde alimentariam a migração de famílias para regiões vizinhas, como o território de Cantagalo, no Rio de Janeiro.

Já os Moraes, por sua vez, pertenciam a uma linhagem que se consolidou nesse mesmo processo de interiorização e expansão econômica. Originários do circuito mineiro-fluminense, os Moraes estavam inseridos entre os grupos que, ao longo do final do século XVIII, migraram e se estabeleceram na região de Cantagalo, acompanhando o avanço da ocupação territorial após o ciclo do ouro. Nesse movimento, integraram-se às redes locais de poder e propriedade, participando da formação das primeiras estruturas agrárias que dariam origem à futura economia cafeeira.

Dentro dessa família destacava-se Manoel Antônio de Moraes, que se casou com Maria Thereza de Mello por volta de 1818. Esse casamento representou a união de dois ramos já inseridos em processos de expansão territorial e consolidação social. Mais importante ainda, Manoel Antônio era irmão de João Antônio de Moraes, futuro Barão de Duas Barras, uma das figuras mais expressivas da elite cafeeira fluminense do século XIX, cuja atuação esteve diretamente ligada à transformação econômica da região.

Dessa união entre Maria Thereza e Manoel Antônio de Moraes nasceram nove filhos, formando um primeiro núcleo familiar profundamente integrado às redes de poder de Cantagalo. Com a morte do marido em 1830, Maria Thereza ficou viúva ainda jovem, em um contexto em que a continuidade das alianças familiares era essencial.

Pouco depois, Maria Thereza contraiu segundas núpcias com Joaquim Caetano da Costa, personagem ligado à expansão territorial mineira e reconhecido como um dos primeiros requerentes de terras na região de Patrocínio (MG), no sertão do Alto Paranaíba. Sua atuação insere-se no movimento de abertura de novas fronteiras agrícolas em Minas Gerais, processo fundamental para a reorganização econômica do interior no século XIX.

Dessa segunda união nasceram apenas dois filhos: Gonçalo Ferreira da Costa e Anna Paula de Mello (1836–1869). Ambos cresceram em um ambiente familiar marcado pela convivência com os meios-irmãos do primeiro casamento materno e pela articulação entre duas grandes redes de origem: a dos Moraes, vinculada à elite cafeeira de Cantagalo, e a dos Costa, associada à ocupação pioneira de terras no interior mineiro.

Gonçalo nasceu em Cantagalo em 1838, em um momento em que a região vivia sua transformação definitiva de antigo núcleo minerador para importante centro da economia cafeeira fluminense. Nesse ambiente, famílias como a sua estruturavam sua influência por meio de alianças matrimoniais, heranças e expansão territorial, sustentando um modelo social baseado na grande propriedade e no trabalho escravizado.

Ao atingir a juventude, Gonçalo Ferreira da Costa deixou Cantagalo e fixou-se em Minas Gerais, na região de São Sebastião da Serra do Salitre, área ligada ao movimento inicial de ocupação promovido por seu pai. Essa mudança representou a continuidade da expansão familiar em direção ao interior mineiro, reforçando o caráter dinâmico e territorialmente amplo de sua linhagem.

O casamento de Gonçalo com Silvéria Barbosa de Mello,  ampliou ainda mais essa rede de relações. Silvéria era filha de Manoel Joaquim Cabral de Mello, Barão de São Francisco das Chagas, e de Donância Felizarda de Mello, pertencendo a uma das famílias mais influentes da aristocracia rural mineira. Essa união consolidou a integração definitiva de Gonçalo às elites regionais, conectando Cantagalo às estruturas políticas e econômicas de Minas Gerais.

Dessa forma, a trajetória de Gonçalo Ferreira da Costa emerge como resultado de um longo processo histórico de formação de redes familiares e territoriais. Antes mesmo de seu nascimento, já estavam estabelecidas as bases de sua identidade: a migração e consolidação dos Moraes em Cantagalo, a origem mineira de Maria Thereza de Mello e a expansão pioneira de Joaquim Caetano da Costa em Patrocínio. Nesse cruzamento de linhagens, territórios e estratégias familiares, constrói-se o universo social que molda sua vida e sua posição dentro da história do interior brasileiro no século XIX.

A fotografia apresenta o casal Gonçalo e Silvéria, cuidadosamente trajado com roupas formais e adornadas com detalhes que evidenciam status social e atenção à aparência, sugerindo um momento de pose intencional e solene, típico de registros fotográficos de épocas em que a fotografia era um evento significativo e não cotidiano. A presença do cão “Xerife”, sugere uma relação afetiva próxima com os animais, indicando que eles ocupavam um espaço de companhia constante no ambiente doméstico, ultrapassando a função utilitária e sendo incorporados ao convívio familiar.

 

Dessa união nasceram os filhos de Gonçalo e Silvéria, que representam a continuidade e diversificação dessa trajetória familiar:

  • Tobias Ferreira de Mello, casado com Amélia; destacado agropecuarista, um dos primeiros brasileiros a viajar à Índia para adquirir exemplares de gado zebu, contribuindo para a modernização da pecuária brasileira;
  • Manoel e Avelina, que faleceram ainda crianças, vítimas de tuberculose;
  • Amélia da Costa, casada com Hermenegildo Rodrigues;
  • Maria Thereza da Costa (Lêza), casada com Cincinato Ferreira de Aguiar;
  • Juvenília Ferreira da Costa (Vina), casada com Ananias Ferreira de Aguiar.

Os dois últimos genros, Cincinato e Ananias Ferreira de Aguiar, eram irmãos e pertenciam a uma família de fazendeiros de Ibiá, descendentes dos Ferreira originários de Santo Antônio do Amparo, integrando assim outra importante rede agrária do centro-oeste mineiro. Essas alianças matrimoniais reforçavam a lógica característica das elites rurais do século XIX, em que casamentos funcionavam como instrumentos de consolidação patrimonial, ampliação de propriedades e fortalecimento político.  Deixaram grande descendência na região, ampliando e perpetuando a presença da família nas áreas de Minas Gerais ao longo das gerações.

Além de sua atuação como proprietário rural e figura inserida nas redes familiares da elite regional, Gonçalo Ferreira da Costa era conhecido por seu apreço pelas atividades de campo, especialmente as caçadas, prática comum entre os homens de sua condição social no século XIX. Esses momentos de lazer no ambiente rural refletiam não apenas costumes da época, mas também sua profunda ligação com a vida no campo e com o cotidiano das propriedades, onde transitava com naturalidade entre as responsabilidades de administração e os hábitos próprios da cultura agrária de seu tempo.

Por coincidência — ou não — essa tradição ligada ao universo da caça parece ter encontrado continuidade nas gerações seguintes da família. Duas de suas netas, filhas de Maria Thereza da CostaJosefa de Aguiar e Irinéa de Aguiar, casaram-se com dois conhecidos e respeitados caçadores da região: respectivamente Getúlio Ferreira de Aguiar e Carlos de Ávila Netto, popularmente conhecido como “Carico”. Este último ganhou especial notoriedade local, sendo reconhecido como um dos grandes caçadores da região, a ponto de atrair entusiastas da caça de diversas partes do Brasil, que se deslocavam para participar de expedições ao seu lado, consolidando sua reputação como referência nesse tipo de atividade.

Josefa e Irinéa de Aguiar

 

Carlos de Avila Netto e Irinéa

 

Josefa e Getúlio Ferreira de Aguiar

Getúlio Ferreira de Aguiar e sua matilha de cães de caça

Documento de Identidade de Carlos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A seguir, para ilustrar, um recibo de compras de Silvéria:

O documento apresentado é um registro comercial manuscrito datado de 10 de julho de 1920, emitido pelo estabelecimento “Theodoro Martins dos Santos”, localizado em São Sebastião da Serra do Salitre, no estado de Minas Gerais, revelando práticas típicas de comércio interiorano do início do século XX, baseadas no sistema de crédito informal e anotações detalhadas de consumo. O documento é endereçado à cliente Silvéria Barbosa de Mello, e reúne uma lista de produtos adquiridos, refletindo tanto necessidades domésticas quanto itens de uso cotidiano e possivelmente supérfluo, como tachinho, agulhas, botões, carretel de linha, metro de fazenda, colchetes, erva-doce, peças de tecido, além de objetos como licoreiro, par de sapatinhos e até um litro de conhaque, o que evidencia a diversidade do comércio local, que ia de aviamentos e tecidos a alimentos e bebidas. Os valores são expressos em réis, moeda vigente no período, somando ao final a quantia de 47.300 réis, o que demonstra a precisão contábil mesmo em um contexto de escrita manual e comércio de pequena escala.

 

 

 

 

 

 

Quando o Cerrado Tinha Voz: A Lenda das Caçadas da Fazenda Bananal

Memórias do Capitão Carlos de Ávila Netto e sua célebre matilha no interior de

Minas Gerais

 

Carico e sua matilha de cães de caça

 

No cerrado do Alto Paranaíba, houve um tempo em que o dia não começava pelo relógio, mas pelo som. O latido vinha antes do sol, ecoando entre veredas e capões, marcando o início de uma ordem antiga em que homem, cavalo e cão formavam um mesmo sistema de leitura da paisagem.

No fim do século XIX e início do século XX, o interior do Brasil ainda preservava uma relação direta entre o homem e o ambiente natural. Em regiões do Cerrado, como o Alto Paranaíba — especialmente em Araxá e arredores — a caça representava uma tradição rural ligada ao cotidiano das fazendas, das tropas de cavalos e das extensas áreas de campo aberto.

Nesse contexto, destacavam-se dois cervídeos comuns aos caçadores: o veado-campeiro (catingueiro), típico dos campos limpos do Cerrado, e o chamado veado-galheiro, mais associado às áreas de mata e capões florestados. A presença desses animais estruturava a paisagem e definia estratégias distintas de caça, conforme o terreno e o comportamento da presa. Animais como pacas, cotias, lobos e esporadicamente alguma onça que aparecesse também poderiam ser alvo dos caçadores.

Grupo de caçadores em acampamento na região de Araxá em 1927, podendo-se observar Octávio Fonseca, José Adolpho de Aguiar, Zeca do Alfredo, dentre outros.

 

As caçadas eram, em geral, realizadas a cavalo e em grupo. O cavalo não era apenas meio de transporte, mas elemento essencial da perseguição, permitindo acompanhar longas distâncias em campo aberto. Os caçadores experientes conheciam trilhas, aguados e corredores naturais da fauna, compondo uma leitura precisa do território.

Um elemento central dessas expedições eram os cães de caça, especialmente os de tipo “urrador”, que perseguiam a presa emitindo vocalizações contínuas, orientando os caçadores durante a corrida. Entre eles, destacavam-se cães do tipo American Foxhound, ou simplesmente Americanos, valorizados pela resistência, faro apurado e capacidade de sustentar longas perseguições.

A combinação entre cavalo, cães e conhecimento do terreno formava o núcleo dessas caçadas. Mais do que simples prática predatória, elas refletiam um modo de vida rural em que o domínio do espaço natural se ligava à sobrevivência, ao prestígio social e às tradições das grandes fazendas do interior mineiro.

Com o avanço do século XX, a expansão das propriedades, as transformações do Cerrado e a evolução das legislações ambientais reduziram progressivamente essas práticas. Ainda assim, permanecem na memória regional como parte de uma época em que o cerrado era atravessado por perseguições longas, guiadas pelo som dos cães e pelo rastro dos animais.

 

Tradição, prestígio e o saber do caçador

 

 

Essas caçadas com matilha organizada pertenciam a uma tradição rural antiga, parcialmente herdada de práticas europeias — sobretudo de Portugal e Espanha — e adaptada às condições do Cerrado brasileiro. Aqui, em vez de raposas ou cervos europeus, caçavam-se animais nativos como o porco-do-mato e os veados, em paisagens amplas e abertas.

Carico e um grupo de amigos, mostrando um veado galheiro que foi caçado

 

Essas expedições tinham também um forte papel social. Mais do que esporte, eram eventos de prestígio rural. Grandes proprietários reuniam visitantes de diversas regiões, formando redes de sociabilidade baseadas na hospitalidade, na qualidade das matilhas e na reputação do anfitrião. Em muitos casos, essas jornadas reforçavam alianças entre famílias e consolidavam posições sociais.

Nesse universo, destacava-se a figura do “caçador de matilha”, representado na memória regional pelo Capitão Carlos de Ávila Netto, lembrado por seu domínio técnico do campo. Seu conhecimento envolvia leitura de terreno, comportamento animal, clima e interpretação do som dos cães — saberes não formais, transmitidos pela experiência e reconhecidos na prática.

Com o tempo, essas práticas entraram em declínio devido à legislação ambiental, à redução das áreas contínuas de mata nativa e às mudanças culturais do meio rural, que passou a privilegiar a pecuária e outras formas de produção.

Hoje, sobrevivem, sobretudo na memória oral, como registros de uma época em que o cerrado era vivido em sua plenitude sensorial, entre som, rastro e deslocamento

A Caça e o Manejo dos Cães

 

Os cães eram manejados de forma prática e funcional. Frequentemente alimentados com angu de milho, carne e restos de abate, também recebiam partes menos nobres das presas capturadas. Após a caça, o aproveitamento do animal era integral: o lombo era destinado ao consumo humano, o couro tratado para uso doméstico ou comercial, e os chifres guardados como troféus ou utilizados artesanalmente. Esse sistema integrava a caça ao cotidiano produtivo da fazenda, onde praticamente nada era desperdiçado.

Os cães — entre eles Lord, Fragata, Farol, Berrante, Buzina, Cadete, Flamengo e Cigana — eram organizados em canis próximos ao Monjolo, com alimentação reforçada e treinamento constante. Cada um desempenhava função específica: alguns mais rápidos, outros mais farejadores, outros mais resistentes, compondo uma estrutura funcional da matilha.

Cães americanos sendo alimentados

As caçadas começavam ao amanhecer, quando o rastro ainda estava fresco. Soltos em áreas de mata ou campo, os cães seguiam o odor da presa e, ao localizá-la, passavam a latir em sequência, formando uma espécie de mapa sonoro. O acompanhamento era feito a cavalo ou a pé, guiado pelos latidos e, por vezes, por sinais de berrante, usado para reunir ou redirecionar a matilha.

Alguns cães mais experientes assumiam liderança natural, mantendo a perseguição mesmo quando o animal mudava de direção ou cruzava cursos d’água. O objetivo podia variar: encurralar a presa até a chegada dos caçadores ou abatê-la no local, prática posteriormente restringida pela legislação.

Essas expedições também tinham forte dimensão social, com visitantes de várias regiões do Brasil, acampamentos, refeições coletivas e longos períodos de convivência rural. Os cães eram tratados como patrimônio da fazenda, cada um com nome, função e reputação dentro da memória local.

Cães no curral da fazenda, geralmente ficavam atrelados dois a dois

 

 

No rastro da matilha: Fazenda Bananal

 

 

Na Fazenda Bananal, o dia ainda não havia clareado por completo quando o movimento começava no pátio. A névoa cobria os pastos e o silêncio era interrompido pelo ranger de portas do canil e pelo som seco dos passos na terra. Os cães mais experientes: Lord, Fragata, Farol, Berrante, Buzina, Cadete, Flamengo e Cigana — já demonstravam inquietação, antecipando a saída.

O manejo era rigoroso. Cada cão tinha seu espaço, rotina e função, e os mais velhos ensinavam os mais jovens na prática. Antes da partida, havia inspeção completa: patas, pelagem, estado físico e comportamento. A matilha era organizada conforme o papel de cada animal na caçada.

Com o nascer do sol, o Capitão Carlos de Ávila Netto e seus convidados montavam a cavalo. O silêncio que precedia a saída era quebrado pelo som da buzina de chifre e por um gesto que liberava os cães.

A partir desse momento, o ritmo do cerrado mudava. Os cães se dispersavam em busca do rastro e, ao encontrá-lo, formavam uma sequência de latidos que desenhava a perseguição no espaço. Fragata e Farol geralmente identificavam a trilha primeiro; Berrante e Buzina sustentavam o avanço; Cadete e Flamengo mantinham resistência; Cigana ajustava o rumo quando necessário.

A cavalgada seguia guiada pelo som. A buzina era usada para reunir ou reorganizar a matilha quando o rastro se fragmentava. Havia uma coordenação silenciosa entre homem, cavalo e cão, baseada em sinais e experiência acumulada.

Quando a perseguição se prolongava, o cerrado inteiro parecia entrar em sintonia: galhos quebrando, folhas abertas, latidos que se aproximavam e se afastavam em ondas sonoras. Ao final, vinha o momento de pausa — cães exaustos, cavalos suados e o retorno ao silêncio.

Em uma dessas saídas, após horas de perseguição pelo cerrado adentro, a matilha conseguiu encerrar uma boa caçada. O rastro firme do veado-catingueiro foi seguido com precisão, passando por capões de mato, áreas de campo aberto e trechos de terreno mais duro, onde as pegadas quase se apagavam. Aos poucos, os latidos se concentraram, indicando que o cerco se fechava. O animal, já exausto pela longa fuga, acabou sendo encurralado em uma baixada próxima a um brejo raso, onde a investida final dos cães definiu o desfecho. O retorno se deu com a marca de uma caçada bem-sucedida: o veado-catingueiro abatido e a matilha ainda ofegante, mas vibrando na linguagem própria da caça.

De volta à sede, a caçada se transformava em narrativa. Os lances eram recontados, os cães valorizados, e a memória da perseguição ganhava novos contornos na conversa.

Com o passar dos anos, essas caçadas deixaram de ser rotina e passaram a integrar a memória. O cerrado mudou, as regras mudaram e também mudou a relação com a natureza. Permanecem, porém, os nomes dos cães — Lord, Fragata, Farol, Berrante, Buzina, Cadete, Flamengo e Cigana — como ecos de um tempo em que a paisagem era lida pelo som.

 

A buzina do caçador feita de chifre é um instrumento tradicional usado na caça para se comunicar com os cães durante a perseguição. O som forte e característico do chifre consegue ecoar por longas distâncias, mesmo em áreas de mata fechada, ajudando o caçador a orientar os animais e manter a matilha reunida. Cada tipo de toque pode ter um significado diferente, como chamar os cães, indicar mudança de direção ou sinalizar o fim da caçada. Além da função prática, esse tipo de buzina também faz parte da cultura e das tradições antigas de caça em várias regiões.

 

A Fazenda Bananal

Carico, filhas e as Grandes Estrelas: Seus Cães Americanos

A Fazenda Bananal, herdada pelo Capitão Carlos de Ávila Netto — filho de Tibúrcio Joaquim de Ávila e Thereza Thomázia Teixeira, localiza-se no município de Ibiá, nas proximidades do distrito de Argenita, junto ao Rio São João. Com cerca de mil alqueires de terras de cultura, era uma propriedade de grande expressão regional.

Tratava-se de uma fazenda de produção intensa e diversidade natural, onde a criação de gado curraleiro coexistia com pomares abundantes e paisagem fértil. Destacavam-se o marmelo, as jabuticabeiras carregadas e os pés de pêssego, compondo um cenário de abundância.

Nesse contexto, a Bananal não era apenas uma propriedade rural, mas um universo completo — onde trabalho, natureza e tradição se entrelaçavam no cotidiano do cerrado mineiro.

Fazenda Bananal, reportagem veiculada em Revista na década de 40, mostrando alguns animais criados na propriedade e a Matilha de Cães Americanos

 

Joaquim de Avila com os cães em frente à sede da Fazenda

Os Carro de bois também faziam parte do cotidiano da fazenda

Geraldo de Avila com os cães

Geraldo de Avila e Getúlio Ferreira em uma caçada

Causos de Família: Além dos Nomes e das Datas

Toda genealogia se completa quando os registros documentais se unem à história e aos causos preservados pela tradição oral, revelando não apenas quem foram os antepassados, mas também como viveram, quais valores cultivaram e as lembranças que deixaram às gerações seguintes.

 

“Causo” da Última Caçada dos Irmãos Carico, Sinhô e Zeca na Fazenda das Três Cruzes

Na Fazenda das Três Cruzes, no município de Ibiá, propriedade de Sinhô, os irmãos Carico, Sinhô e Zeca — já idosos, de passos mais lentos e memória ainda mais viva — decidiram revisitar os tempos das antigas caçadas que marcaram sua juventude no interior de Minas Gerais. Antes mesmo do sol romper direito o horizonte, o cheiro de café coado se misturava ao de couro velho e madeira guardada no paiol.

No canto do galpão, como relíquias de outro tempo, estavam as velhas espingardas de cano duplo, ainda bem cuidadas, engraxadas por hábito mais do que por necessidade. Zeca passou a mão com cuidado no metal frio, como quem cumprimenta um velho companheiro. Não carregavam munição como antes — ou melhor, carregavam mais saudade do que pólvora. Ainda assim, o gesto de abrir a coronha e verificar o mecanismo trouxe um brilho nos olhos dos três.

Os cachorros de caça, agora também envelhecidos, mas ainda inquietos ao pressentir a movimentação, começaram a latir baixo e a farejar o terreiro. Eram cães criados desde filhotes nas trilhas da fazenda, acostumados a rastrear perdizes, pacas e qualquer sinal de vida no mato fechado. Hoje, porém, mais do que caçadores, pareciam guardiões das lembranças dos donos.

Logo ao amanhecer, os irmãos caminharam pelos velhos caminhos da fazenda, espingardas apoiadas no ombro, os cães à frente abrindo trilha no capim orvalhado. Cada estalo de galho seco parecia ecoar como nos tempos antigos. A cada trecho percorrido, surgiam causos antigos: o rastro perdido na grota, o susto com algum bicho que nunca ninguém soube se existiu de fato, as corridas desajeitadas pela mata cerrada e as broncas de Sinhô para manter a calma dos cães em treinamento.

Os cachorros, mesmo mais lentos, ainda se animavam ao menor cheiro diferente no ar, levantando o focinho e avançando alguns metros, como se a juventude deles também insistisse em não acabar.

Em certo momento, os cães pararam em alerta e começaram a rodear um ponto entre o capim alto. Os três irmãos instintivamente apertaram as coronhas das espingardas, e por instantes o coração voltou a bater como nos tempos áureos da caça. Aproximaram-se com cautela, em silêncio absoluto, como manda o costume antigo.

Mas o que encontraram não foi nenhuma presa. Era apenas a velha mula da fazenda, imóvel, ruminando calmamente, olhando tudo com uma indiferença quase sábia. Os cachorros, frustrados, perderam o interesse e voltaram a cheirar o chão como se nada tivesse acontecido.

As gargalhadas vieram imediatas, quebrando o silêncio da manhã. Carico disse que a idade já não ajudava a enxergar direito nem o que estava bem na frente. Sinhô respondeu que o problema era mais a saudade do que a vista. Zeca, apoiando a espingarda no chão e acariciando um dos cães, completou que a melhor caça, naquela altura da vida, era mesmo a lembrança bem contada — e que os cães, no fundo, já sabiam disso há muito tempo.

Os irmãos também eram amantes da pesca e, em muitos momentos, trocavam a caçada pela tranquilidade dos rios da região. Naquela ocasião, decidiram que seria mais agradável e repousante estender o dia às margens da água, deixando as espingardas de lado para se dedicarem à pesca, atividade que lhes oferecia um prazer mais sereno e contemplativo, em contraste com a movimentação da caça.

Assim, encerraram o passeio na Fazenda das Três Cruzes sem nenhuma presa, com as espingardas intactas e os cães cansados, mas tranquilos. E ficou a certeza de que algumas caçadas não terminam com troféus, e sim com passos lentos na terra, latidos ao vento e histórias que atravessam gerações como se ainda estivessem sendo vividas.

 

Os irmãos Zeca, Sinhô, Carico e Olinto voltando de uma pescaria no Rio Quebra Anzol

 

Geraldo do Carico, uma Figura Singular

Geraldo de Ávila, carinhosamente conhecido como Geraldo do Carico, era daquelas pessoas raras que conquistavam a todos pela simplicidade e pela bondade. Gêmeo de Geralda (Dadi), ambos nasceram prematuros, de apenas sete meses, na fazenda da família. Tão pequenos e frágeis eram que permaneceram por algum tempo acomodados em uma caixa de sapatos, sendo alimentados com leite de égua administrado em conta-gotas. De temperamento manso e coração generoso, não havia quem não lhe quisesse bem. Sempre bem-humorado e espirituoso, possuía o dom de transformar os acontecimentos mais simples em histórias inesquecíveis. Seus inúmeros causos, narrados com naturalidade, inteligência e graça, arrancavam risos de todos e permanecem vivos na memória daqueles que tiveram o privilégio de conviver com ele. A seguir, ficam registrados alguns desses episódios, preservados pela tradição oral da família, que revelam não apenas seu extraordinário senso de humor, mas também a personalidade cativante que fez de Geraldo do Carico uma figura inesquecível.

Geraldo após uma caçada, portando espingarda e Buzina de chifre

 

O Veado que Caçou o Caçador

Dizem que lá pelos lados do sertão mineiro vivia um caçador conhecido como Geraldo do Carico. Homem experiente, conhecia mato, trilha e rastro como poucos. Jurava que nunca tinha voltado para casa sem encontrar alguma caça.

Numa madrugada de lua minguante, Geraldo do Carico saiu atrás de um veado-catingueiro que vinha aparecendo nas roças da região. Levou espingarda, faca e um cachorro velho chamado Brinquinho.

Depois de horas seguindo rastros, encontrou marcas frescas perto de uma vereda. O cachorro começou a farejar e avançou. Geraldo foi atrás.

O estranho é que, quanto mais andavam, mais os rastros pareciam surgir onde não deveriam. Às vezes apareciam na lama, depois sumiam em terreno seco e reapareciam do outro lado de um córrego sem nenhuma pegada no meio.

Já perto do entardecer, Geraldo avistou o veado entre as árvores. Era um animal enorme, com galhada impressionante. Apontou a espingarda, mas o bicho apenas olhou para ele e desapareceu atrás de uma moita.

Geraldo correu para alcançar. Quando passou pela moita, não havia veado nenhum. Em vez disso, encontrou uma clareira que nunca tinha visto antes. E no centro dela havia uma pedra grande.

Sentou para descansar e percebeu algo estranho: o sol estava nascendo.

— Como assim nascendo? — resmungou.

Ele tinha entrado no mato de madrugada, caminhado o dia inteiro e agora o sol parecia nascer de novo.

Assustado, voltou pelo caminho. Horas depois encontrou uma estrada e finalmente chegou à fazenda. Lá descobriu que não tinha ficado um dia fora. Tinha ficado três dias desaparecido.

O cachorro voltou magro, cansado e cheio de carrapatos. Já Geraldo jurava que tinha passado apenas uma tarde no mato.

Depois disso, Geraldo do Carico nunca mais perseguiu aquele veado. E sempre que alguém perguntava o motivo, respondia:

— Tem caça que a gente caça. E tem caça que caça a gente.

 

Geraldo do Carico e o Cavalo Sem Vergonha

O Geraldo do Carico tinha um cavalo meio esquisito, desses que o povo comentava na venda. O bicho era manso, bonito até… mas tinha um defeito: toda vez que alguém montava nele, o danado soltava um peido alto, sem aviso nenhum.

Não importava quem fosse — era subir na sela e “prrrrt!”.

O povo já até esperava.

— Montou no cavalo do Geraldo? Já pode rir antes mesmo de sair.

Um dia, Geraldo arrumou uma namorada lá na região de uma fazenda vizinha. Moça direita, simpática, daquelas de família conhecida. Foi passar o dia com ela, conversou, tomou café, comeu bolo, ficou aquele clima bom de visita demorada. Quando o sol começou a cair, ele já sabia: era hora de ir embora. Aí deu aquele frio na barriga.

— Uai… agora eu tô lascado… — pensou ele. — Se eu montar nesse cavalo na frente dela, ele vai aprontar de novo… e eu vou passar vergonha.

Ficou andando de um lado pro outro, coçando a cabeça, inventando desculpa pra demorar mais um pouco. Mas não tinha jeito. A despedida chegou. A moça acompanhou-o até o terreiro, sorrindo. O cavalo já tava selado, só esperando. Geraldo respirou fundo. Montou devagar. Olhou pra ela. Olhou pro cavalo. Nada aconteceu. Ele estranhou.

— Uai… hoje você resolveu colaborar?

A moça deu tchau, encostada na cerca, toda elegante. Geraldo, ainda desconfiado, apertou as rédeas. Na hora da despedida, pra tentar disfarçar qualquer risco e sair com dignidade, ele falou meio sem jeito:

— Tchau… e vai peidar.

A moça ficou parada, sem entender nada. E o cavalo, como se tivesse entendido a ordem, soltou um daqueles “prrrrt” bem na hora e saiu andando tranquilo pela estrada.

 

Geraldo do Carico e o “Bispão Danado”

Isso foi quando o Geraldo do Carico ainda era menino, lá pelos lados da fazenda Bananal, perto de Argenita, onde morava a mãe dele, dona Irinea, que tinha passado por uma cirurgia e tava se recuperando.

Um dia apareceu por lá um bispo — homem importante, respeitado, desses que andam bem arrumado, com batina, cruz no peito e um chapéu grande que chamava atenção de longe. Ele tinha ido visitar dona Irinea, pra dar bênção e conforto depois da operação. Enquanto a mãe não aparecia, alguém pediu pro pequeno Geraldo fazer sala pro visitante.

E lá ficou o menino, sentado, olhando com aquele olho curioso de criança do interior.

O bispo falava devagar, com aquele jeito sério:
— Deus cuida de nós em todo momento…
— A recuperação é uma bênção…

E o Geraldo, toda vez que o homem fazia uma pausa, respondia animado, admirando o chapéu e a postura:

— Ê bispão danadoooo!

O bispo estranhava um pouco, mas seguia a conversa, achando que era só jeito de criança.

— E a família, meu filho?
— Tudo bem, bispão danadoooo!

— E você tem estudado?
— Tenho sim, bispão danadoooo!

Cada frase, uma resposta igual. O povo que tava por perto já mordia o riso, mas ninguém corrigia o menino.

Quando dona Irinea finalmente apareceu, o bispo comentou, meio sem jeito:

— Seu filho é muito… entusiasmado.

E ela perguntou o motivo. Explicaram. Ela deu uma risada daquelas de chorar.

E o Geraldo, sem entender muito, só completou:

— Uai, ele num é o bispão danado? Eu só tava respondendo direito.

 

Chuva no Lombo, Sono na Cama!!

Quem conheceu Geraldo do Carico sabe que ele tinha um talento especial para evitar trabalho em dia de chuva. Toda madrugada, antes mesmo de abrir os olhos, ele chamava seu companheiro de todas as horas, um cachorro velho e fiel que dormia do lado de fora da casa.

— Vem cá, danado!

O cão entrava abanando o rabo e encostava-se na cama. Sem levantar a cabeça do travesseiro, Geraldo esticava a mão e passava no dorso do animal. Era o seu jeito de conferir o tempo. Se o pelo estivesse seco, ele dizia:

— Tá bom, o dia tá firme.

Então se levantava, calçava as botinas e ia cuidar dos afazeres. Mas se a mão encontrasse o lombo molhado, não precisava de mais informação nenhuma.

— Humm... tá chovendo.

Virava para o canto da parede, puxava a coberta até a orelha e decretava:

— Serviço nenhum vai importar de esperar.

E dormia mais um tanto. O povo dizia que Geraldo confiava mais no cachorro do que em qualquer previsão do tempo. E, para falar a verdade, o método raramente falhava. Certa vez um vizinho perguntou:

— Geraldo, você nunca erra esse negócio de saber se tá chovendo?

Ele respondeu:

— Nunca. Se o cachorro tá molhado, ou tá chovendo ou ele andou na chuva. Nos dois casos, não é dia de levantar cedo. E assim, para Geraldo, cachorro molhado era aviso de chuva e autorização oficial para continuar na cama.