Prévia da inflação de maio estoura teto da meta, mesmo com alívio de combustíveis
Apesar da queda nos combustíveis, avanço persistente nos preços de alimentos e serviços eleva o índice para 4,64% em 12 meses e consolida cenário de juros altos por mais tempo The post Prévia da inflação de maio estoura teto da meta, mesmo com alívio de combustíveis appeared first on InfoMoney.

O alívio nos preços dos combustíveis desacelerou a alta da prévia da inflação (IPCA-15), que avançou 0,62% em maio, pressionada pelo grupo de alimentação e bebidas (1,38%). Em abril, o indicador havia ficado em 0,89%. Embora o dado tenha reduzido o ritmo de alta, ele aponta para riscos estruturais de pressão na inflação. No acumulado de 12 meses, a prévia já supera o teto da meta e vai a 4,64%, aponta o IBGE.
Na análise dos especialistas, a desaceleração não conseguiu refletir uma queda de preços estruturada entre todos os setores, e segue acendendo o alerta para um menor espaço para o corte de juros pelo Banco Central.
“O resultado mostrou um núcleo de inflação ainda persistente, com serviços e bens industrializados subjacentes permanecendo pressionados, mesmo com algum alívio vindo dos preços de combustíveis”, avalia Alexandre Maluf, economista da XP.
Para Leonardo Costa, economista do ASA, embora o resultado de maio tenha desacelerado em relação a abril, ele mostra uma surpresa negativa na análise qualitativa. Isso quer dizer que o dado aponta uma inflação disseminada e mais estrutural, indo além dos efeitos do conflito no Oriente Médio e do choque de oferta do petróleo.
Para o Bank of America (BofA), a leitura dos dados é desfavorável. Alberto Ramos, economista da instituição, avalia que as pressões inflacionárias em serviços seguem “intensas e disseminadas”.
Segundo a análise da XP, as principais surpresas de alta vieram de tubérculos, raízes e legumes (+3bps) e de produtos farmacêuticos (+2bps). Já as surpresas de baixa vieram de derivados de leite (‑4,7bps), passagens aéreas (‑5bps) e bens industrializados (‑3bps).
Leia também: Focus: mercado eleva projeção de inflação para 2026 e reduz expectativa para dólarGrupo Abril (%) Maio (%) Índice Geral 0,89 0,62 Alimentação e bebidas 1,46 1,38 Habitação 0,42 1,03 Artigos de residência 0,48 0,21 Vestuário 0,76 0,36 Transportes 1,34 -0,33 Saúde e cuidados pessoais 0,93 1,05 Despesas pessoais 0,32 0,5 Educação 0,05 0,01 Comunicação 0,48 0,36
Alimentação
O grupo de alimentação e bebidas teve avanço de 1,46%, puxado por alimentação no domicílio, que subiu 1,73% na comparação mensal, acima das projeções.
Gabriel Pestana, economista-sênior da Genial Investimentos, destaca que a pressão de preços está mais disseminada e alcança os alimentos in natura, o que reflete uma pior qualidade no dado.
Julio Cesar, economista do Banco Daycoval, afirma que o dado vai contra o recuo de preços no segmento, que era esperado pelo mercado.
“A expectativa era de um arrefecimento maior dos preços dos alimentos em relação ao mês anterior. Houve um arrefecimento, mas foi muito menor do que o esperado”, diz, citando repasses de valores em carnes, derivados de leite, arroz, batata e tomate.
A XP projeta moderação para o trimestre seguinte, e prevê aumento no último trimestre de 2026 em decorrência do fenômeno climático El Niño.
Serviços
A média móvel trimestral, que capta o avanço da inflação no curto prazo, aponta que os serviços subjacentes subiram de 5,98% para 6,15% em maio. Este grupo exclui itens voláteis e capta a tendência de pressão sobre os preços. Maluf, da XP, alerta que os percentuais estão muito acima da meta de inflação, que é de 3%, com margem de tolerância para até 4,5%.
Os serviços intensivos em mão de obra aumentaram 0,59% na comparação mensal e foi de 7,19% para 7,43% na média móvel de três meses. O acumulado de 12 meses já chega a 7,03%.
Para André Matos, CEO da MA7 Negócios, o ponto que mais merece atenção daqui para frente é a difusão da inflação e o comportamento dos serviços subjacentes, que são os termômetros para o Banco Central decidir se mantém o ciclo de corte de juros.
Bens industrializados
Os preços dos bens industrializados subiram 0,31% na comparação mensal, abaixo das expectativas. No entanto, as análises apontam deterioração qualitativa na composição dos preços. Para a equipe de macroeconomia do Itaú, a leitura de hoje mostra que o qualitativo da inflação segue piorando, com serviços e industriais subjacentes acelerando na margem. A avaliação é que o dado reflete os efeitos altistas do choque no petróleo, especialmente nos industriais.
Leonardo Costa, do ASA, explica que o comportamento do setor reflete a absorção de efeitos indiretos do aumento de preços do petróleo, que transferem os custos ao longo da cadeia produtiva.
Já Carlos Thadeu, economista de inflação e commodities da BGC Liquidez, tem uma leitura mais otimista, apontando que a desaceleração do segmento industrial confirma uma dinâmica favorável para a inflação futura.
Projeção para inflação e Selic
Com a prévia da inflação avançando mais que o esperado, o Itaú projeta que o IPCA em 2026 deve fechar em 5,2%, caracterizando o balanço de risco como assimétrico para cima.
A XP aguarda inflação de 5,3%, mesmo percentual da MAG Investimentos. O Inter prevê 5,1%, e a Genial Investimentos calcula o encerramento em 4,9%. PicPay e Daycoval projetam a inflação de 2026 em 4,7%.
Com o resultado do IPCA-15, as instituições financeiras vão consolidando a projeção de juros restritivos por mais tempo, vendo o espaço para os cortes diminuir ao longo dos meses.
O BofA avalia que o cenário ainda é desafiador. “Há deterioração renovada das expectativas de inflação de curto e médio prazo, hiato do produto positivo, mercado de trabalho restrito e uma série de medidas fiscais/quase fiscais/de crédito antes das eleições do 4º trimestre de 2026 exigem, em nossa opinião, uma calibração conservadora do ciclo de normalização da política monetária”, diz Ramos, em relatório.
“Na prática, o dado consolida a leitura de juros altos por mais tempo e custo de capital mais pesado para as empresas no segundo semestre”, afirma Peterson Rizzo, head de Relações com Investidores da Multiplike.
Pablo Spyer, conselheiro da ANCORD, aponta que o índice deve levar a autoridade monetária a ter maior cautela em suas decisões. “Esse resultado praticamente consolida a percepção de que a Selic deve permanecer em patamar elevado por mais tempo”, afirma.
A XP estima que o Comitê de Política Monetária (Copom) realizará três cortes de 25 pontos base, encerrando o ciclo com a Selic a 13,75%.
Para o C6 Bank, a projeção é de Selic em 13,5% ao fim do ano. A Genial Investimentos projeta a taxa a 13,25%.
Já o Banco Pine está sendo mais conservador. Nesta semana, a instituição informou que havia mudado a projeção da Selic para o ano, estimando dois cortes de 25 pontos-base, levando a taxa final a14% para 2026.
“Mesmo um eventual arrefecimento das tensões geopolíticas dificilmente seria suficiente para reverter a reprecificação estrutural observada nas curvas globais de juros. A combinação entre inflação mais persistente, deterioração fiscal e elevação dos prêmios de risco sugere um ambiente de juros reais mais elevados por período prolongado, inclusive no Brasil”, avalia Cristiano Oliveira, diretor de pesquisa econômica do Banco Pine.
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