A infância sequestrada pelas telas

Ago 28, 2025 - 15:08
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A infância sequestrada pelas telas

Por Rafael Esterlino

Diretor Executivo da Agência 8 Mídias

Big techs, governo e sociedade no banco dos réus

Adultização infantil virou epidemia digital. Crianças brasileiras estão cada vez mais expostas a conteúdos adultizados, influenciadores mirins e exploração online. Dados mostram efeitos graves na saúde mental e revelam a urgência de uma resposta coletiva.

O que é adultização

Adultizar é empurrar a criança para um mundo que não é dela: preocupações com aparência, posturas de adulto, pressões sociais e responsabilidades precoces. Quando meninas e meninos passam a viver como “mini adultos”, deixam para trás a essência da infância — espaço de brincar, sonhar e se desenvolver. O resultado é uma geração sobrecarregada, ansiosa e insegura.

Crianças cada vez mais conectadas

No Brasil, 95% das crianças e adolescentes de 9 a 17 anos já usam a internet. Pior: um em cada quatro entrou online antes dos seis anos. O celular é o dispositivo dominante (97% usam), e plataformas como YouTube, TikTok e Instagram estão no centro dessa rotina. O uso é intenso: mais da metade acessa redes sociais várias vezes ao dia.

Esse mergulho precoce no digital não é neutro. O tempo diante das telas significa exposição contínua a publicidade disfarçada, padrões irreais e comportamentos impróprios para a idade.

Quando a saúde mental paga a conta

As consequências já aparecem. Pesquisas mostram que 40% dos jovens têm sua autoestima impactada por curtidas e que passar mais de três horas em redes aumenta em 30% o risco de depressão. Ansiedade, distúrbios do sono e até atrasos cognitivos foram relacionados ao uso excessivo.

A adultização digital, ao colocar crianças em papéis para os quais não estão prontas, gera estresse, confusão de identidade e sofrimento emocional. Como alerta a Fundação Abrinq, trata-se de um processo que deixa marcas duradouras.

Influenciadores mirins e publicidade proibida

O fenômeno dos influenciadores mirins agrava o cenário. Perfis de crianças com milhões de seguidores promovem produtos e estilos de vida de forma velada, prática ilegal no Brasil desde 2014. Reportagens recentes revelaram contas com milhões de visualizações em propagandas direcionadas a crianças — algo proibido pelo Conanda e pelo Código de Defesa do Consumidor.

Além do consumismo precoce, cresce a hipersexualização: vídeos de danças sensuais, uso de maquiagem e poses adultizadas. O chamado “Sephora Kids”, crianças que já reproduzem rotinas de beleza, é exemplo de como o mercado lucra com a perda da inocência.

O que diz a lei e o que falta fazer

O Estatuto da Criança e do Adolescente já criminaliza a exposição vexatória ou sexualizada de menores. Mas as redes sociais abriram novas brechas. Projetos como o PL 2628/2022 e o PL 2310/2025 tentam preencher esse vazio: exigem autorização judicial para influenciadores mirins, limitam jornada de exposição e obrigam plataformas a remover conteúdo impróprio.

O governo também abriu consulta pública para lançar um guia nacional de uso consciente de telas, reconhecendo os danos do excesso. Mas, enquanto a lei patina, big techs seguem lucrando com cada clique.

Felca e a denúncia que chocou o país

O tema ganhou explosão em agosto de 2025, quando o Youtuber Felca lançou o vídeo Adultização. Em cinco dias, foram 34 milhões de visualizações. O criador mostrou como algoritmos recomendam conteúdos sexualizados de crianças a quem interage com fotos suspeitas.

O caso mais emblemático foi o do influenciador Hytalo Santos, preso dias depois sob acusações de exploração sexual e tráfico humano. A pressão foi tamanha que o Congresso convocou big techs para dar explicações e acelerou projetos de lei.

A infância não é mercadoria

Adultizar crianças é plantar hoje a ansiedade e depressão que colheremos amanhã. É roubar delas o direito de viver o tempo mais importante da vida. A responsabilidade é de todos: das plataformas que lucram, das empresas que anunciam, do governo que regula pouco, das famílias que terceirizam o cuidado.

A infância não pode ser tratada como produto. É vida plena, com valor próprio. Se quisermos um futuro saudável, precisamos agir agora.

Redação - JI Redação do Jornal Interação da Cidade de Araxá - Minas Gerais.