Ormuz e El Niño preocupam cafeicultor – e podem deixar o cafezinho de 2027 mais caro

A disparada nos preços de fertilizantes e um potencial El Niño intenso podem inverter a normalização dos preços do café The post Ormuz e El Niño preocupam cafeicultor – e podem deixar o cafezinho de 2027 mais caro appeared first on InfoMoney.

Mai 14, 2026 - 08:00
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Ormuz e El Niño preocupam cafeicultor – e podem deixar o cafezinho de 2027 mais caro

A manutenção do aumento dos custos “da porteira para dentro” do cafeicultor brasileiro, visto neste primeiro semestre de 2026, pode brecar a desacerelação do preço do cafezinho que vinha sendo registrada no último ano – um resultado da disparada nos preços de insumos agrícolas escoados pelo estreito de Ormuz, e da possibilidade de formação de um El Niño severo no segundo semestre.

Em entrevista ao InfoMoney, Airam Quiuqui, administrador do Sítio Jabuticaba, em Águia Branca (ES), relatou que os efeitos do cenário geopolítico já começaram a impactar diretamente a operação da sua propriedade de cerca de 60 hectares dedicada ao cultivo de café.

Na conversa, que ocorreu em uma expedição da Nescafé, o agricultor apresentou dados e estimativas que se referem exclusivamente à realidade da fazenda administrada pela sua família – mas que, ao mesmo tempo, servem como um termômetro do sentimento do setor. A propriedade é uma das fornecedoras da Nestlé no Espírito Santo.

O peso da geopolítica no custo do campo

Segundo Quiuqui, um dos principais impactos foi observado no custo dos fertilizantes usados na propriedade nos últimos meses, que registrou alta entre 30% e 40%, em função do fechamento do Estreito de Ormuz, com o conflito entre Irã e Estados Unidos no Oriente Médio. Atualmente, o Sítio Jabuticaba utiliza, em média, cerca de 2 mil toneladas de fertilizantes por hectare ao longo do ciclo produtivo, o que aumenta a exposição da operação às oscilações de preços internacionais.

O cenário reflete uma vulnerabilidade estrutural do agronegócio brasileiro. Hoje, o Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes que consome, segundo a Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA), tornando o setor altamente suscetível a crises logísticas.

Em entrevista recente ao InfoMoney, analistas explicaram como conflitos envolvendo grandes fornecedores globais e gargalos em rotas estratégicas afetam diretamente o abastecimento brasileiro – cerca de 30% das importações nacionais de fertilizantes vêm da Rússia e precisam passar por Ormuz.

Mas, segundo Quiuqui, o maior choque na sua fazenda veio da estrutura de irrigação. Como o café cultivado na propriedade depende fortemente de água para manter produtividade e qualidade, itens como bombas, tubos de PVC e mangueiras de polietileno – derivados petroquímicos – registraram forte aumento de preço diante da valorização do petróleo e da instabilidade logística internacional.

“O custo da irrigação explodiu”, afirma o administrador. Na propriedade, alguns componentes utilizados no sistema hídrico ficaram até 50% mais caros.

Na prática, isso pressiona diretamente as margens da atividade. Considerando apenas os fertilizantes, que representam cerca de 15% das despesas operacionais da propriedade, com um encarecimento de aproximadamente 30% desses insumos, o efeito final equivale a uma alta de 4,5% no custo total da operação – um impacto relevante para uma atividade cuja margem líquida costuma variar entre 20% e 25%, segundo o produtor.

De acordo com Quiuqui, grande parte desse choque ainda não foi repassada ao consumidor final porque muitos produtores seguem utilizando estoques adquiridos na safra anterior, mas, sem nenhuma melhora substancial no cenário, a tendência é de pressão crescente sobre os custos da safra 2026/2027.

Mudanças climáticas aceleram transformação da cafeicultura

O clima também gera apreensão no setor: modelos meteorológicos internacionais já indicam aumento da probabilidade de um novo ciclo de El Niño ao longo de 2026, após o enfraquecimento da La Niña observada no início do ano.

Um dos traumas gerados pelo El Niño ocorreu na safra de 2024, quando o El Niño trouxe temperaturas extremas, estiagens severas e forte estresse hídrico.

Para Quiuqui, as mudanças climáticas deixaram de ser um risco pontual e passaram a representar um desafio estrutural para a atividade cafeeira, que só pode ser endereçado por práticas de agricultura regenerativa e conservação hídrica – que se tornaram ainda mais relevantes para o Sítio Jabuticaba a partir de 2024. Na ocasião, parte das áreas passou a ser destinada à recomposição vegetal e à proteção ambiental para melhorar a retenção de água, reduzir a temperatura do solo e aumentar a resiliência térmica dos cafezais.

Segundo Quiuqui, essa adaptação deixou de ser apenas uma estratégia ambiental e passou a ser uma necessidade econômica. “Sem água e sem proteção térmica, o café simplesmente não suporta”, resume.

Agora, o principal foco do setor está na janela climática entre agosto e outubro, período decisivo para a florada do café. A chegada das chuvas será determinante para o potencial produtivo da próxima safra – e para o preço do cafezinho nos meses seguintes.

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